Tuesday, May 8, 2007
Diário de uma viagem interminável
Darwin, 8 de Maio de 2007
Como já todos sabem, tivemos um pequeno grande incidente, descrito na seguinte crónica do Quim. Os nomes são fictícios. Quem fazia parte da viagem no momento do acidente eram 6 profes jovens e um guia timorense que nos ia levar ao aclamado nascer do Sol no ponto mais alto de Timor Leste. Ficamos pelo caminho.
Já estou a regressar à pátria, com a cadeira de rodas, o gesso, a tíbia, perónio e clavícula “facturadas” e umas quantas colorações negras-amareladas-azuis-esverdeadas no corpo.
“Parte I
O descanso do meu corpo é tremulamente interrompido pela inconstância de um barulho intermitente. Como seria habitual num qualquer dia neste lugar, as 7:17h são um marco inseparável do distúrbio. O silêncio do repouso é gradualmente interrompido pelo marcador de tempo. “Mais dez minutos”, penso eu. E assim silencio momentaneamente o despertador.
O sábado desperta radiante. Tal como eu em dias de viagem. O misticismo da viagem talvez se materialize num muito querer e pouco saber dos seus contornos. A surpresa constante de um percurso que se vai descobrindo, esboçando, orientado por um olhar único e meu. Um tão singelo olhar como quem procura fora, o olhar para dentro.
A temperatura como sempre não pede grandes protecções e a calmaria matinal assola todo o bairro em que me encontro. Ambicionamos chegar ao Ramelau, o pico mais alto desta ilha divida. Uma ilha de picos mas que como em todos os picos, há sempre um mais alto que todos os outros, daí a sua escolha.
O transporte escolhido fora um Jipe que a muito custo conseguimos resgatá-lo a Pedro. Pedro é um sóbrio proprietário da agência de aluguer de automóveis, mecânico, dono de uma mercearia… faz de tudo um pouco na vida como qualquer um dos locais timorenses em que a quantidade do seu trabalho não o permite, mesmo assim, rejeitar uns dólares de última hora. A ausência de carros neste país faz com que quem tenha carro tenha um meio de subsistência, assim ter carro é um bem mais que precioso e o aluguer deste quase inalcansável. Mas nada que dólares e meia dúzia de palavras certas não resolvam!
Assim demos início à nossa travessia. Com o atraso habitual das intempéries do não planeado e das necessidades conjugais de cada um, partimos rumo ao pico mais alto. E de facto somente julgaríamos saber o nosso fim, o Nascer do sol no Ramelau! Diz quem sabe, ser um evento magnífico! Digno de autênticas peregrinações de quem se consegue aventurar a encontrar vida para além do sentido da sobrevivência, para quem ainda não sabe desta classificação, aqui estes são os malai.
Como bons malais, navegamos escarpa acima, deslumbrados. Envoltos por uma infindável vegetação que nos abraça e envolve e nos entranha. Díli começa a esvanecer no horizonte, suave, calmo, tranquilo como um gigante adormecido. Na subtileza de quem observa, este gigante parece terno, afável. Da montanha deslumbra-se um Cristo Rei sem história somente belo e afoito dando as boas vindas ao mar. A arquitectura da cidade orienta-se como outra qualquer cidade num outro qualquer recanto do mundo, para o liso azul-turquesa.
“Como é possível ser uma cidade instável!” questionei-me ao ser confrontado com as memórias de blindados, tropas e demonstrações de força que se dizem necessárias para manter a ordem nos “adolescentes”. Montanha a cima, fotografia abaixo e para todos os outros ângulos procuramos reter todos os recantos e encantos que nos afrontam.
Estou mesmo feliz, já há algum tempo que necessitava disto. O prazer que me consome. A estrada define-se com o passar dos momentos e o clima entre os seis viajantes não podia ser melhor. Os caminhos são sinuosos mas pacíficos. A estrada assume contornos rasgados na montanha que penetram nas povoações de Timor mais profundo. Consegue-se respirar a pacatez de uma vida no isolamento que a geografia nos dá, um sorriso, um “boatardí” a quem se cruza. Sinto-me em perfeita sintonia com o caminho que nos guia somente aqui e ali perturbada pelo abrandar para deixar passar um novo carro. Jipes de malais, Microletes atoladas de pessoas, animais e todas as suas pertenças intrometem-se no nosso caminho e permitem mais um agradável diálogo de quem viaja. Rimo-nos. Imagino que acenar talvez não seja a melhor forma de cumprimentar pessoas que se encontram penduradas nas Microletes e apartir daqui passamos somente a verbalizar. Cantamos. O Jipe não tem rádio então há que nos fazermos ouvir para evitar a monotonia do motor. A Maria canta, canta e encanta com a ajuda do seu mp3, fazendo assim uma função de karaoke colectivo! Os marcos na estrada anunciam possíveis monumentos, que por estas bandas surgem timidamente associados a eventos primários de força ou religiosos. Um marco à II Guerra Mundial, igrejas e mini santuários, em Ainaro um monumento aos mártires da independência e já em pleno Maubice um cruzeiro de agradecimento aos portugueses que por cá passaram e tantas saudades deixaram nos mais antigos.
Maubice. Pequena cidade montanhesa a fazer lembrar uma qualquer cidade serrana das nossas mas mais pequena. Tem uma igreja e uma pousada num cume e um restaurante homónimo de um dos nossos tripulantes. Tudo o resto é paisagem, e que paisagem! Lost world tropical.
Após cinco horas de viagem, a lua sobrepõe-se ao sol. As estrelas no céu só podem anunciar o perdurar do meu estado. Estou a gostar mesmo desta viagem, da condução do Jipe, da companhia das pessoas e sabendo que para mim ainda a posso prolongar por mais uns dias, juntamente com o Robert e o Sebastien. Ao contrário dos outros que iriam regressar no dia seguinte.
Os guardiães da Pousada de Maubice subsistem na pacatez de uma possível ameaça dormindo ao som da música. Nós seríamos naquela noite a ameaça, quebrando a monotonia de mais um dia. Jantamos e repastamos noite dentro na preparação da caminhada. Segundo nos informamos a subida ao pico mais alto começava com uma viagem de 28km com uma duração aproximada de duas horas e meia até ao supé da montanha em Hatu Builiko. Sabíamos que deveríamos levar agasalhos uma vez que este dista 2960m da linha da água e teríamos pela frente cerca de duas horas de caminhada sem a protecção do habitáculo.
A linha que nos guia pronuncia-se enleada com a paisagem. Os sobressaltos e intermitências da estrada introduzem um carácter mágico e misterioso à viagem. Curva contra curva, montanhas, locais que se deslocam para o seu trabalho carregando o seu “ganha pão”, búfalos, cavalos, abrigos; vão preenchendo o cenário que cada vez mais nos absorve e nos precipita. Rodeados por tudo isto navegamos rumo à subida que soa a escalada do tão desejado palco de nascer do sol. “
“Parte II
Traíste-me… Era a ti que nós queríamos ver… E não a todas as outras iguais a ti. As Estrelas salpicavam um mar escuro de árvores, gravilha, arbustos e bem lá no fundo da escarpa algo destoava da paisagem. Um Jipe.
Sentado na encosta recostei-me entorpecido. Reparo que ainda possuo telemóvel e procuro nele vida mas em vão. Não tem rede. A minha cabeça… não a sinto senão dormente apelando ao toque como que para confirmar a sua existência. Uma suave e húmida textura induz-me a ausência de cabelo. O pânico nem tem tempo para se instalar. Começa a escalada rumo à estrada, é como trepar um escadote de gravilha e arbustos com 100 metros de tamanho. Tenho que chegar à estrada nem que seja a última coisa a fazer nesta vida. O que nos foi acontecer! Calma, cada coisa a seu passo… Vamos começar por compor o escalpe e “montar” a minha cabeça.
Estou consciente, sempre estive consciente, questiono-me será que o Robert tem razão quando diz que saber morrer é só saber seleccionar o momento de desligar? Não tive esse saber… Deito-me na calçada que mais parece um caminho de cabras incertas, os pés ainda meios na encosta… mas não dava para mais. Esperança de um auxílio. Frio. Começa o primeiro alarme, as meias e a t-shirt assumem-se como insuficientes. O sangue jorra como se de um ribeiro se tratasse a descer a sua encosta; ainda aturdido da subida íngreme inspecciono mais uma vez o telemóvel. Em vão, vai ter mesmo que ser assim. SOCORRO… AJUDA… repetidamente.
O eco esbate-se pelas montanhas sem que daí surgisse uma vibração no nosso sentido. Nosso… Estou só. Pressiono com mais força ainda a cabeça. Não estanca, mas persisto. Tento levantar-me mas em vão. Em ciclos curtos vou repetindo as palavras mágicas. Ninguém responde… Será este o nosso fim? Estou fraco. O meu corpo escoa-se como uma ampulheta em dia de exame, procuro incessantemente o telemóvel que se encontra apertado na minha mão direita, nada. Não há rede. Com a mão esquerda a pressionar firmemente a cabeça arrisco-me a uma previsão.
Ao barulho da brisa que bate nos ramos sobrepõe-se agora os passos acelerados de quem precisa. Pessoas locais dirigem-se para o meu corpo postado no seu caminho. Quase tropeçam nele mas não se atrasam, imperturbáveis, seguem em frente como se de um outro tipo de luta se tratasse. “Sr. AJUDA!”. Finalmente a resposta ao meu grito, pensei precipitadamente. Ninguém parou, e passou e passou…
Estas crianças no saber, adolescentes no agir e envelhecidos no não ser, continuaram bravamente o seu destino rumo ao pão que lhes dá a vida.
O casulo que me reveste não consegue ser suficiente… Se ao menos fosse uma borboleta ainda teria mais um dia! Vou gravar… “Mãe, peço desculpa mas tudo ficou por aqui. Havia ainda muito para dizer, para fazer, para viver. Ainda não sei, mas se te ajudar saio satisfeito por jamais ter feito algo que não quisesse. Orgulho-me de mim, de ti, dos avós e de todos os que escolhi e me escolheram. Adoro-te.”.
Mais descansado, sem nada a perder continuo a minha saga. AJUUDAA! Sr. Fala em Maubice de acidente! Polícia! Ambulância… Alguma coisa que seja!
Vera, a nossa tradutora de tétum vai lá atrás com Marie. A viagem prossegue como nada nem ninguém nos fizesse parar. A meio: Sebastien, o nosso guia local que não fala português e Sílvia, a nossa professora de Português. A viagem que roçava a aventura na noite via-se emocionantemente pacífica. Falava-se de todos os contos que revestem aquele lugar místico. Dizem que para lá existem homenzinhos verdes! Gnomos! E que se os virmos lhes podemos pedir três desejos. Conta-se também que durante a caminhada nunca se pode perguntar se falta muito. Faz com que o Ramelau fique mais longe.
Imagino como Marcus se deve sentir. Por muito que o tétum possa derivar do português, encontra também nas suas raízes outras línguas e dialectos que não a nossa. Este elemento está claramente no “nosso” habitat natural. Sozinho, calado, a observar o caminho sem compreender. Como a língua é importante… Nem mesmo o mito da torre de babel nos consegue fazer perceber sem viver, pensei.
E lá continuamos o nosso caminho, a evitar cuidadosamente todas as imperfeições que nos enfrentam.
Aluiu. Na ânsia de se manter na superfície não consegue mais senão afundar-se. Primeiramente cai para a esquerda e vou com ele de encontro à pega de protecção, já com o referencial invertido prepara-se para mais uma reviravolta e mais outra e outra até que alguma coisa se intrometa no caminho e o imobilize. Não esperei por esse momento, saltei…
“Saltei no vazio que afinal é bem mais
E vim cair num mundo igual,
Só aparenta
o erro foi deixar,
a ironia da câmara lenta
não nos dar tempo para pensar…””
- Joaquim Oliveira
Thursday, April 26, 2007
Discos Pedidos - Lado B
O Bairro
Festejos do 25 de Abril no Vasco da Gama (lasanha de beringelas e fricassé de camarão).
O meu quarto.
O meu quarto visto do sítio onde estou agora (cama) com o meu reflexo no espelho azul e a palhota por trás da janela.
Jantarada na minha casa.
Jantarada de regresso dos evacuados na palhota (dress code: xanata, calção de praia, óculos de sol e caviada - ou será caveada, manuelas?)
O meu quarto luminoso ao fundo, visto do jardim do bairro.
Discos Pedidos - Lado A
Díli
O bairro de refugiados em frente ao Hotel Timor.
O edifício queimado do outro lado da rua da Universidade.
Timorense a passar no Bairro de Audian.
Carrinha Peugeot com o vidro de trás com um grande buraco de pedrada.
O problemático Bairro de Comoro onde vendem umas lipas (tecidos) belíssimas.
Fogueiras nocturnas na minha rua.
A Papelaria e a Casa de Fotocópias.
“Centro comercial” de Colmera.
Tuesday, April 24, 2007
Díli, 23 de Abril de 2007
Ufa, finalmente respiro um pouco para esses lados ocidentais, já que o oriente me tem tido presa na doce maresia do muito fazer, sem fazer assim tanto.
Primeiro, a evacuação.
Julgo que era segunda feira, embora eu aqui perca completamente o fio à meada dos dias passados que não são fim de semana. Decidi passear à tarde para comprar alguns bens um tanto essenciais que havia já um mês que faziam falta. Sair aqui para ir às compras não é meter-me no viper e seguir até ao shopping, mas é sim percorrer toda uma parnóplia de lojas, lojinhas, mercados e armazéns espalhados pela bela cidade feia.
Atravesso o jardim do bairro kafkiano, passo a muralha austera e fico ao descoberto. Viro à esquerda, sigo pelo passeio esburacado durante uns três ou quatro passos, até que me mando para o meio da rua. Em Díli não vale a pena o esforço de usar os passeios. Sigo até ao cruzamento do banco BNU, ou Caixa Geral de Depósitos, e quase já fui incubida à compra por cinco ou seis vendedores de cartões de recarga do telemóvel e mais uns tantos miúdos a vender toranjas, laranjas, anonas, maracujás, bananas e pepinos pendurados no pau que trazem aos ombros. “La precisa”, “”Bôa tardi” , “Não precisa”, “Obrigada”. Espero para atravessar. Espero muito tempo e o que me vale é a sombra da magnólia ultra bem cheirosa que me abriga do Sol ardente das 15 horas. Daqui a nada o céu fica cinza e roxo, como todas as tardes, e depois chora as lágrimas da felicidade por pertencer a uma terra tão verde. Enquanto espero passam uns 30 jeeps brancos da ONU, conduzidos por malais que se esqueceram daquelas paragens que faziam nas passadeiras das terras deles. Sigo até ao Palácio do Governo e aí nem hesito em atravessar bem à frente dos guardas australianos ou de outra nacionalidade qualquer de arma em riste a proteger o edifício imponente do estilo colonial gigante, branco, com arcadas e que ocupa um quarteirão inteiro. Bem em frente ao mar, com a ilha de Ataúro ao fundo que parece hoje estar bem mais próxima do que parecia no outro dia. O jardim do Palácio é perfeito para os guardas timorenses dormirem de papo para o ar, ou jogarem cartas, ou se sentarem de cócoras, à sombra com os calcanhares no chão. Pavoneio-me e quase ninguém tem a coragem de se atravessar assim. Muito menos se não tiver pele branca.
Cruzo-me com a Verónica e o Tozé que trazem quilos de papaias, anonas e outros verdes comestíveis - afinal há mais corajosos. Mais um cruzamento, o da embaixada de Portugal e sigo por aí fora. As ruas são bastante largas e a arquitectura é de edifícios baixos, máximo dois andares, às vezes anos 50, outras vezes de um estilo horroroso indonésio. Quase sempre têm portões de correr abertos, ou semi abertos. Muitas vezes não há janelas,mas sim plásticos. Quase edifício-sim-edifício-não está queimado ou demolido. Todos em muito mau estado, excepto aqueles do governo. Loja chinesa de electrodomésticos, armazém de tecidos, fios, missangas, cuecas, cosmética, restaurante de paredes verde água e cortinas com flores, mercearia. Chego ao Rocella Café, o sítio onde fiz a primeira refeição em Timor - terrível - e onde já comi, depois, o melhor peixinho da minha vida. Gordo, grande, saboroso e fresco. Trata-se de uma espécie de ilha, ladeada por quartos para alugar e com um pátio razoavelmente grande enfeitado com luzes de Natal nas trepadeiras tropicais, cachecol do sporting e do benfica, um cartaz descolorado de uma gaja boa com uma cerveja indonésia namão, mesas e cadeiras de palhinha, 3 grandes poltronas, um bar redondo no centro e sempre o mesmo cd a tocar kizomba, dave matthews (“love of my life” com Santana, imaginem!), entre outros. A minha vinda aqui nesta tarde deveu-se a um cinto lindo lindo lindo lindo de missangas de coral azul turquesa que vi na lojinha de artesanato que há à entrada do estabelecimento. Nunca tinha comprado nada para mim, assim, em Timor. Negócio feito, e não deu para negociar.
Saio do Rocella,viro à esquerda e continuo em direcção ao banco neo-zelandês, ANZ. Loja de bicicletas, de motas, mini mercado, hoteis, cafés, compro donuts porque a fome já aperta. Troco umas palavras arranhadas em tétum com o guarda da esquina, para lhe perguntar onde é a agência de viagens australiana. Quero ir a Sydney. O australiano da agência diz-me que compre pela internet senão fica caro. Ok. Já não preciso de ir comprar bicicleta ao Jacinto porque o Tozé diz que me vende a dele. Como um geladinho por 25 centimos ali ao lado e já só me falta comprar a máquina de tirar água dos garrafões de 19 litros que o Sr. Luis Marinho leva para o bairro à encomenda. Beber água é um grande esforço. Tenho de ter mesmo sede para me dar ao trabalho de pegar no garrafão e virá-lo para um copito. Chego aos chineses e vejo umas quantas maquinetas daquelas. Peço a mais barata, 15 dolares, o botão da água quente ou não funciona ou tem a luzinha laranja fundida, baixa para os 12 e está feito o negócio. Finalmente vou beber água por tudo e por nada. Faço o trajecto inverso até ao bairro, começa a pingar e daqui a nada vai desabar.
Liga-me o Mr. FUP a dizer que há problemas no porto e os profes têm reunião urgente, daí a 15 minutos na Sala de Profes da UNTL. Atravesso a muralha e encontro o Adido de Segurança que nos dá mais algumas luzes. Vamos ser evacuados. Houve um derrame no porto, mesmo atrás de nossa casa. Pouso a maquineta, e sigo para a Universidade, já atrasada porque acompanho a A.-malária e o Q.-irritado-dos-intestinos. Quando chegámos a reunião já acabou. Dois resumos possíveis, como sempre em Timor: ou é verdade ou é boato.
É verdade.
Um navio que transportava ácido-plutónico-empobrecido (HCl) em direcção à Austrália teve um furo, e os australianos mandaram trocar o pneu em Timor. Este ácido, que era usado na primeira guerra mundial para eliminar pessoal, tem a característica de formar nuvens tóxicas, pesadas. Saímos da UNTL, e no caminho para casa assistimos a um pôr-do-sol radioactivo cor de rosa, verde, amarelo, laranja, lá para os lados do porto. A nossa rua estava fechada e bem guardada por uns camuflados neo-zelandeses jeitosos a beber Coca Cola, com a metralhadora numa só mão e um chapéuzinho ridículo à explorador da selva. Toca a fazer a mala, porque vamos para o Hotel Vila Bemori. Graças a Deus, já estava a morrer de tédio nestes dias.
É boato.
Enquanto estou no Hotel com uma bebezinha timorense de dois meses nos braços (que chora sempre que outro pega nela) penso que se é verdade aquilo que dizem. Este país é inacreditável. Querem tirar as centenas de refugiados do jardim em frente ao Hotel Timor, e até já construíram casas para eles. Lançaram o boato do derrame, para que os habitantes do jardim se desloquem, mas eles não saem. Ficam ali expostos ao gás fictício dos pores-do-sol imaginários.
Segundo, e último, por cá está tudo óptimo.
Por agora é tudo. Beijos.
Thursday, April 19, 2007
Sunday, April 15, 2007
Monday, April 9, 2007
Férias na escola
Fuiloro, Lospalos, 7 de Abril de 2007
Reparo, meia sorridente, meia irritada com a inoportunidade do tique, em duas coisas. A primeira é que estou sempre a dizer “Bonito!” ou “Que bonito!” ou “É muito bonito!”. Simplesmente bonita a simplicidade da vida em Timor. A segunda coisa é que me impressiona, de quando em vez, que exista tanta ausência. De uma forma abundante. Finalmente abandono o silêncio presente em Díli para conhecer a sonoridade dos distritos, onde há falta de tudo e excesso de alguma paz.
Esta viagem dava um filme. Inicialmente seríamos oito. A A. ficou com malária, o Z. estava com febre, o N. adormeceu. Hoje é sábado e a A. ficou a dormir desde 3ª feira e já chegou aos 43 kg; passou a febre ao Z. que acabou por se queimar no escape de uma moto quando saltou da estrada para não ser atropelado nos tumúltos de 4ª feira em Díli; foi uma pena o N. não vir porque tinha o futuro dele para discutir. Formou-se em Economia e Gestão há um ano e está empregado como faz-tudo dos profes malais na UNTL (Universidade Nacional de Timor Lorosae). Especialista das fotocópias. Não pode ser. Quero falar-lhe do microcrédito. Num país onde há falta de tudo, oportunidades de negócio não faltam. 6 da manhã, éramos cinco, e eu tinha acordado 5 minutos antes. O bis de, digamos, 20 lugares (tipo hiace) veio-nos buscar ao quarteirão e ainda bem porque assim assegurámos os nossos lugares sentados. Parámos na marginal, no mercado do peixe à frente do Hotel Turismo, onde se foi juntando um bando de gente e animais e sacos de arroz. Liguei aos meus pais dali, onde o Sol nascia, enquanto o pessoal timorense se grizava a tirar as medidas ao grupinho exótico que corajosamente se juntava no meio deles. De repente tornou-se claro naquele lusco fusco matinal que estava a fazer de isco à malária e não tinha tido tempo de pôr o repelente nos 5 minutos que tive para me levantar e pegar nas coisas. Zumba pra dentro do Bis tomar uma caneca do café timorense que imediatamente entornei por mim abaixo. Mantive-me assim porcalhona até agora. É difícil estar limpa nestas terras. Tenho sempre as unhas pretas. Foi entrando gente e galinhas e mais sacos de arroz e ração de animal e de repente os 20 lugares multiplicaram-se pelo dobro dos viajantes. 5 no telhado, 6 na porta aberta, uns tantos pelo corredor de 20 cm de largura, 2 ou 3 nas traseiras. Uma festa. E assim entramos no Timor profundo rumo a ainda mais leste pela estrada sinuosa que segue a linha do mar com música indonésia de fundo, mas também o bom do pimba tuga. Já não me lembrava de enjoar tanto. Fizemos uma paragem numa praia, onde por 1 dólar comi de pequeno almoço um peixinho vermelho e amarelo grelhado acabado de pescar com arroz de côco. Uma senhora local abriu a sua casa para poder usufruir do “quarto de banho”. Fotos, calor, um aluno que regressava ao distrito para a Páscoa. Soubemos que estávamos a chegar a Lospalos, mais ou menos 200 km e 6 horas depois, quando o “pica” voou da traseira da bis pelo corredor ao nosso lado a pedir 5 dólares.
Chegámos às freirinhas canussianas (?!) do orfanato Dom Bosco, em Lospalos. Elas eram três, parecia que gravitavam em placidez. E nós cheios de fome, cheios de sono. E elas fa-la-vam mui-to de-va-ga-ri-nho. Eu tirei os meus sapatos malcheirosos, e rapidamente nos disseram para irmos almoçar. Tínhamos a mesa posta e uma refeição humilde à nossa espera. Na altura parecia humilde, agora sei que foi do que melhor comi entre lá e agora. A L. levava-lhes umas voltinhas de Fátima e só lhes dizia “irmã, isto é pechisbeque, não vale a pena tentar vender”. Vai não vai, eleições para cá, observadores para lá, vai-se a ver e não tinham cama para nós. A A. liga ao Carlos do Hotel Roberto Carlos, expõe a situação e ele rapidamente nos vem buscar e levar para o Hotel dele. O Carlos é um personagem malai, nascido em Angola, vivido em Portugal e França, com nacionalidade Australiana. É Timorense desde há 9 anos. Gordo que dói, com um je ne sais quoi de reles, mas boa pessoa. Arranjou-nos um quarto sem mosquiteiro nem ar condicionado no Hotel dele, que tem um crocodilo de 3 metros no jardim. Apareceram uns militares no bar, eu aterrei fortemente a tarde toda. Soube depois que os outros que foram passear em Lospalos foram vaiados por um grupo de jovens da Fretilin “Abaixo a geração portuguesa! Abaixo a geração traidora!”
6 da manhã do dia seguinte, alvorada. O Carlos levou-nos na sua pick-up com banda sonora de kizomba angolano em direcção ao mar (a 30km e uma hora de distância), e depois da linha do mar até Com, e pelo mar dentro até Jaco, a ilha sagrada, onde não há habitantes. Só tenho uma palavra – bonito. Bonito bonito bonito. Água azul turquesa, areia branca, coral, peixes de todas as cores, calor. De cortar a respiração e ficar a contemplar. Regressámos a Com eram já 16h. Enquanto eles e mais uns quantos desenterravam o jeep da areia, nós fomos recebidas por um gang de mulheres de boca vermelha (elas passam o dia a mascar uma cena marada) e tais nas mãos. Comprei dois. Um dos quais belíssimo por cinco dólares da falecida avó da senhora Rosa Moreira Mendes, que partilha o nome próprio de flor da minha Violeta e os dois apelidos dos pais dela. Um pouco mais à frente voltamos a cruzar-nos e ela abriu as portas de casa, quis mostrar os quartos, a cozinha,o tear, as estatuetas, os tais. Um amor. Demos um mergulho em Lautem, e adormecemos a caminho dos padres de Fuiloro onde estivemos até agora. Um seminário, colégio, quinta bastante grande. Que no fundo é o que traz sentido a toda a aldeia. O peso da igreja é enorme nestas gentes. O som dos cânticos pascoais ensaiados durante dia e noite tem-se mantido em nossa volta. E o peso do jejum da semana santa tiquetaqueia no meu estômago que só alberga folhinhas verdes e arroz branco. Desta água não bebo, estou longe da civilização. As reservas de coca cola dos padrecos estão a acabar… 5ª feira à noite, depois do passeio ao paraíso, assistimos a uma missa impressionante, ao ar livre aqui nos jardins do seminário. Em tétum, muito cantada, com muitos rituais que serão os mesmos que em Portugal, à excepção dos trajes delas e deles, envoltos em tais, e, claro, toda a envolvente tropical numa noite de céu aberto e constelações meridionais.
O dia seguinte, 6ª feira santa, foi o dia dos ensinamentos. Chamemos-lhe workshops de queijo, primeiro, e por 6 horas, e papel, depois, já ao fim do dia. Apesar das vias sacras, ensaios das missas e sei lá mais o quê, conseguimos juntar um grupinho de 14 mulheres que por aqui trabalham ou aqui perto vivem. Queijo fresco, requeijão, queijo quase curado, uma queijaria autêntica e olhares encantados por já saberem o que fazer ao leite que sobra de tanta vaca leiteira, balinesa e búfala, coalhado com folha de papaia. Mais made in Timor seria impossível. As resmas de papel usado da UNTL que carregávamos aos ombros desde 3ª, finalmente foram feitas em pedacinhos num boião metálico que serve de reserva de água das chuvas que aqui tanto caem e tão intensamente. Maravilhadas, com as folhas (mais parecia cartão) que criaram e enfeitaram com florzinhas apanhadas do jardim dos padres. Prometeram escrever uma carta às professoras com aquele papel, assim que secasse. Quando chegou a altura de provar os queijos, depois do papel, e os trouxemos para a sala de refeições dos padres (e nossa) surpreendentemente não quiseram. Rapidamente percebemos que devia ter sido por termos levado os queijos para aquela sala que para elas deve ser “proibida”. Ele há coisas dos diabos. Mas bem que nos safaram os queijos do jejum. Senão teria de comer a barata vermelha e amarela que tinha no quarto. Ou a cobra preta.
Hoje acordamos às 5 porque a senhora Elsa, mãe do Fidel, aluno da L. e da A. disse que falou com o senhor do bis e pediu para ele nos vir buscar aqui e não às freirinhas e ele disse que afinal não ia para Díli hoje por causa da “situazi” (eles estão sempre a dizer isto) em Manatuto (parece que houve pedrada por lá) mas que ele ia acordar a essas horas para ver se via a mikrolet a passar e dizia-lhes para pararem aqui em Fuiloro. Nada. Raisparta o homem que adormeceu, ou a mikrolet que não passou. O Padre Manuel já arranjou alguém que nos tire daqui. Queremos comer e beber!
Tuesday, April 3, 2007
Finalmente recuperei as férias lectivas que há um ano perdi. Não sendo já aluna, sou agora a Prôfêssôra Sara, às vezes “fixe”, às vezes “chunga”. Apesar dos conselhos sábios de quem é experiente, já mostrei os dentes nas aulas, mas também já dei reprimendas.
Hoje houve emoção na Universidade. Que susto que apanhei. Estava num intervalo a meio da aula (eu faço disso) na conversa com um profe cá do bairro, o C. de M., que assim é chamado por ter casa lá, quando de repente saem disparados pelas escadas acima entre 15 e 20 alunos a correr, em pânico, mas com sorriso na cara. Eles sorriem por tudo e por nada e pelos motivos mais inexplicáveis.Eu dei um salto daqui para ali num ápice de medo. E disse-me o C. mais tarde que a minha expressão facial não mudou, se não me tinha assustado. Morri de susto, tinha o coração a mil, mas exteriorizei serenidade. Já estavam os alunos a abrir as portas das salas, a espreitar. Fui para a beira dos meus sem perceber o que se passava. O pessoal corria, eu temia que tivesse havido uma invasão ou algo relacionado com as eleições. A cidade está repleta de internacionais, soldados ou não. Passam pelas ruas ocasionalmente camiões de caixa aberta carregados de timorenses quase em transe com bandeiras e berros e pedras nas mãos. É claro que isto mete medo. E o que faço nessas alturas é afastar-me das janelas. É uma realidade que existe realmente e à qual temos de nos habituar mas nunca facilitar porque eles surpreendem e são instáveis. A reacção dos alunos a correr de sorriso na cara assustou-me. O que aconteceu foi um incêndio na Universidade. A caixa de electricidade ardeu com um curto circuito. As aulas acabaram e as férias começaram um pouco mais cedo do que se esperava. Ainda fiquei na conversa com os alunos a tentar perceber o porquê daquela reacção histérica, mas eles não me souberam explicar. Ficamos depois a falar sobre as férias, o que se ia e o que não se ia fazer, se achavam que com a proximidade das eleições na 2ª Díli ia aquecer, disseram que não. De qualquer das formas vou-me pôr a milhas desta cidade já amanhã cedinho. Vai um grupo de 6 (éramos 8, mas já houve mais duas baixas de malária hoje), inlcuindo o N. timorense faz-tudo da Universidade que nos vai acompanhar para fazer de guia/tradutor. Um rapazinho simpático e prestável que vai ter umas férias de graça e conhecer Lospalos, Come, Jaco. Ficaremos num orfanato em Lospalos, onde vamos ensinar a fazer queijo e papel reciclado (sabão não será possível porque não arranjamos soda caustica). Regresso no Sábado, a tempo da Páscoa e de preparar o resto do bimestre, corrigir testes e descansar um pouco.
Quando disse aos alunos que não sou católica, iam morrendo. Quando disse que não acreditava na existência de deus ficaram incrédulos “mas como pode ser? Em Timor quem não acredita em deus é comunista.” Ok. Na 6ª passada, 6ª de ramos, não houve aulas, porque os alunos são obrigados a fazer as confissões dos pecados (apesar de terem poucos, dizem eles) e a Via Sacra. É tudo muito diferente. Ai tinha tanta coisa para contar.
Gastronomia seja. Tenho comido muito mal. Por exemplo, ontem comi bolachas de chocolate o dia todo, e só à noite é que jantei a sério. Há jantaradas que valem muito a pena, só que em geral paga-se e muito. É tudo caríssimo, tirando uns restaurantes à beira da universidade onde se come por 2 dolares americanos (a moeda cá é essa) mais bebida umas comidas asiáticas cheias de picante e molhos. Até é bom, mas há que ter muito cuidado. O Q. já ficou “irritado dos intestinos” – como ele tão carinhosamente gosta de chamar à diarreia – duas vezes depois de comer daquilo. Eu nunca fiquei com essa irritação, embora tenha dito que sim na universidade uma vez que adormeci e faltei à 1ª aula por causa do jetlag. Só menti porque me disseram que o Mr. FUP, vulgo V., não aceitaria desses descuidos. Eu escolho sempre a comida o mais low profile possível. Nunca como saladas cruas fora de casa. Bebidas com gelo só aqui e ali. Há sumos maravilhosos de anona, goiaba, manga, abacate, papaia… Maravilhosos mesmo. Frutas que provam a existência do tal deus. Peixes frescos, acabados de pescar carnudos e com formas que nunca tinha visto antes. A M., empregada cá de casa, faz-nos sopa não todos os dias mas de maneira a termos todos os dias e é isso que costumo comer. Apesar de comer mal, tou gorda. Dizem que é por causa do calor que as senhoras engordam cá. Mas se assim é porque é que as timorenses são todas magricelas? A M. também faz chá de flor de papaia, que é tipo o óleo do fígado de bacalhau, que os meus pais nunca me deram mas deve ser mesmo mau não fosse tão famoso por isso, e serve para afastar a mosquitada malárica. Às vezes a Maria também faz flor de papaia salteada comestível que é tipo os nossos grelos e é óptimo. Ao contrário do chá que se tem de beber de “shot” e com os dedos a fechar o nariz. Camarões… Para jantar fora conta-se sempre com 10 dolares, mínimo. Mas é possível comer muito muito bem, com sorte.
Este fim de semana fui à ilha de Ataúro, em frente a Díli, a mais ou menos duas horas de viagem de distância. Breathtaking. Inacreditável. Bonito que dói. O Q. não podia ter passado um aniversário mais paradisíaco. Sabem o que é turismo zero num paraíso na terra? Água azul turquesa transparente quente com peixinhos de todas as cores e uma paisagem em volta com todos os tons de verde que a montanha pode ter e um céu daquele cinzento arroxeado carregado de calor e humidade, embora mais suportável que o calor de Díli. Belíssimo. O “resort” de ecoturismo era todo feito de palhotas, na vegetação que antecede o areal da praia, elevadas cada uma com duas camas baixas, sem porta, com mosquiteiros. Incrível. Fomos para o mar às 3 da manhã com uma lua quase cheia envolta em relâmpagos místicos da tempestade tropical. Bonito mesmo. Foi um fim de semana contemplativo espectacular. Adoro cada vez mais esta terra.







































