Tuesday, June 5, 2007

Sair

 

“Sair dos dias. Não dormir. Não falar com ninguém. Ficar de fora do lá de fora. Ocupar o coração. À força. Ser como ele. É muito bom e faz muito bem. Espera-se um bocadinho e, pouco a pouco, ele começa a correr para dentro de nós, aflito por atenção. Traz as coisas que adiámos, em que não reparámos, que não tivemos tempo de cuidar. E primeiro vêm as mágoas. A felicidade que recusámos. Sem saber. Sempre sem saber. A tristeza que fugimos. Voltam.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair de nós. Cair nos outros. Não escrever. Ler. Não pensar. Lembrar. Os amigos quietos. O murmúrio do riso que riram. A família parada. O colo onde cabe a cabeça. O amor adormecido. Estas coisas acordam. E sossega saber que nós não somos nada sem eles. E mesmo com eles, quase nada. Escravos de carinhos somos nós, seguindo atrás, de braços abertos, numa fila sem fim.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair dos trabalhos, do dinheiro, das palavras que nada querem ou conseguem dizer. Fazer gazeta. Faltar. Desobedecer. É um trabalho também. Não ir. Não responder. Não entregar. É cumprir também. Desmergulhar. Desfazer. Desacontecer. São tarefas também. Ainda mas difíceis, talvez.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair da ordem. Cair na doçura do acaso. Trocar de caos. Descer. Vestir a mesma roupa. Não fazer a barba. Beber. Fumar. Sem pausa. Sem razão. Ceder. Emergir. Abandalhar. Fazer o que não se está a fazer. Esticar a corda. Não atender. Desarrumar os livros. Passear pela casa como se fosse uma cidade destruída. Estragar.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair da vontade. Cair na estupidez. Não descansar. Ver televisão numa língua que não se compreende. Forçar. Esquecer.
Fazer o que não apetece fazer. Contrariar. Confundir. Comer atum de conserva com uma colher. Pôr o despertador para tocar mal se comece a adormecer. Dizer disparates em voz alta.”Todos agora”. Virar o bico ao pego. Arrepiar. Arrepender.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair do corpo. Cair na alma. De chapão. Sem ver nada à frente. Receber os mistérios. Sem cerimónias. Sem compreender. Ser absorvido. Subjugado. E agradecer. Perder o norte, o fio, os sentidos. E gostar. Divertir. Desprender. Chafurdar na lama. Acriançar. Rir. Começar a chorar. Ser levado, enlevado, enganado, desprotegido, confuso, cruel. Desviado.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair da vida. Cair na morte. Sofrer. Iludir. Acabar. Permanecer na cama. Pensar em tudo o que se faz como se fosse a última vez. Esmorecer. Querer voltar atrás e fingir que já não se pode. Confessar. Pedir. Esvaziar. Ter pena de quem se foi e do que se fez. Rejeitar o perdão, a redenção, a última oportunidade.
 
É muito bom e faz muito bem.
É tão bom e faz tanto bem que, às vezes, cada vez mais, não apetece regressar. Tanto que só nos resta levantarmo-nos de onde caímos e, deixando-nos conduzir por tudo o que nos tolheu os passos desde o dia em que começámos a errar, na contramão das nossas almas, só nos resta procurar um sítio onde a nossa ida não se reconhece, não se aceita, não faz sentido, e entrar.
Entrar aqui. Daqui de onde nunca se sai. E ficar.”
 
Miguel Esteves Cardoso

Posted by sara at 17:52:10
Comments

5 Responses to “Sair”

  1. Anonymous says:

    Viver a vida, celebrar o momento, não pensar em nada, não ter rumo, percorrer caminhos imaginários, ter teorias abstractas e difusas, não nos prendermos, não ficar parado, não querer estar, não querer ficar, não querer.

    É muito bom e faz muito bem.
    É tão bom que as vezes nem sabemos o que saborear, nem o que devemos fazer, não apetece regressar, nem partir, nao apetece nada.

    É excelente e faz ainda melhor.
    Ter alguém com quem partilhar momentos de liberdade destes, as vivências conjuntas, os choros, os risos, as doenças, as conquistas, as derrotas, os sentimentos, as borbulhas, os sinais, o moreno, o escaldão, os escritos, as fotos, as memórias, as familias, os amigos, as sobrinhas e os primos.

    Tiago Costinha

  2. Anonymous says:

    e rebentar em bocados e voltar a recolhê-los todos os dias também é bom!

  3. Anonymous says:

    :) por vezes é assim mesmo que nos sentimos :)

  4. anastácia says:

    Nostalgia - nostos algo
    nostos - voltar para casa
    algo - dolorido/desejar
    Uma doença dolorida que uma pessoa sente porque deseja retornar para sua “casa”, sentindo medo de não ter/ver aquilo outra vez.”

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