Friday, June 29, 2007

Estado completo de fotografia embriagada

 

Tal como em todos os outros dias, o céu tinha um tom diferente ao qual me habituei.

Depois de uma visita à Drª Antónia e de uma ida ao supermercado chinês só para olhar, cheguei àquela parte da avenida esburacada onde seria normal virar à direita. A temperatura estava doce, eram 17h de uma 6ª feira preguiçosa, e dei por mim a pensar que nunca tinha virado ali à esquerda. Aliás, naquele momento não dei por mim a pensar em nada, simplesmente virei à esquerda e só quando atravessei o jardim e entrei numa dimensão que só me trazia novidade é que de facto pensei “eu não conheço nada para este lado”. Este pensamento está errado, não por ser mentira, mas, por exemplo, certamente os timorenses usariam uma forma muito mais correcta do ponto de vista gramatical, semântico e lógico de transmitir aquela ideia que contra o meu propósito e que com a minha dupla negação se anulou.

Nessa altura da minha caminhada eu já estava acompanhada. Fomos andando, primeiro junto ao porto, depois pelo passeio que acompanha o chamado mar de Banda. Do outro lado da estrada o jardim do qual os refugiados se apoderaram e no qual construíram os seus castelos, o seu império. Há uma parte do caminho onde não surpreendentemente o passeio deixa de existir dando lugar a um pedaço de terra cravado de árvores de grande porte. Numa delas estavam pendurados 2 homenzinhos que descascavam os ramos e riam não só muito como alto. Cá em baixo, os miúdos jogavam futebol com camisolas da selecção portuguesa num campo improvisado relvado imaginário. Continuamos, em silêncio.

À porta da igreja que está dentro do campo de refugiados existe uma Terra que podia ser feita de pasta de papel. Foi o cântico que nos convidou a entrar. E assim entrámos, sentámo-nos lá ao fundo e deixámo-nos estar, a ouvi-lo. “ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e / urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às / nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso” * Estava a haver um ensaio do coro que entoando aquelas palavras imperceptíveis misturadas pelo leve toque de uma guitarra conseguiu pôr os céus a chorar a paz que dentro daquele edificio existia. E assim fomos ficando, talvez duas horas. A ouvir.

Quando saí já me tinha despedido e já tinha parado a chuva. O chão era um rio, o Sol daí a nada ia-se pôr. Mergulhei os pés na poça, virei à direita, e preguiçosamente fui terminar a minha semana para outro lado.

 

* Herberto Hélder, Os Animais Carnívoros

Posted by sara at 18:48:47 | Permalink | Comments (7)

Tuesday, June 5, 2007

Sair

 

“Sair dos dias. Não dormir. Não falar com ninguém. Ficar de fora do lá de fora. Ocupar o coração. À força. Ser como ele. É muito bom e faz muito bem. Espera-se um bocadinho e, pouco a pouco, ele começa a correr para dentro de nós, aflito por atenção. Traz as coisas que adiámos, em que não reparámos, que não tivemos tempo de cuidar. E primeiro vêm as mágoas. A felicidade que recusámos. Sem saber. Sempre sem saber. A tristeza que fugimos. Voltam.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair de nós. Cair nos outros. Não escrever. Ler. Não pensar. Lembrar. Os amigos quietos. O murmúrio do riso que riram. A família parada. O colo onde cabe a cabeça. O amor adormecido. Estas coisas acordam. E sossega saber que nós não somos nada sem eles. E mesmo com eles, quase nada. Escravos de carinhos somos nós, seguindo atrás, de braços abertos, numa fila sem fim.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair dos trabalhos, do dinheiro, das palavras que nada querem ou conseguem dizer. Fazer gazeta. Faltar. Desobedecer. É um trabalho também. Não ir. Não responder. Não entregar. É cumprir também. Desmergulhar. Desfazer. Desacontecer. São tarefas também. Ainda mas difíceis, talvez.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair da ordem. Cair na doçura do acaso. Trocar de caos. Descer. Vestir a mesma roupa. Não fazer a barba. Beber. Fumar. Sem pausa. Sem razão. Ceder. Emergir. Abandalhar. Fazer o que não se está a fazer. Esticar a corda. Não atender. Desarrumar os livros. Passear pela casa como se fosse uma cidade destruída. Estragar.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair da vontade. Cair na estupidez. Não descansar. Ver televisão numa língua que não se compreende. Forçar. Esquecer.
Fazer o que não apetece fazer. Contrariar. Confundir. Comer atum de conserva com uma colher. Pôr o despertador para tocar mal se comece a adormecer. Dizer disparates em voz alta.”Todos agora”. Virar o bico ao pego. Arrepiar. Arrepender.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair do corpo. Cair na alma. De chapão. Sem ver nada à frente. Receber os mistérios. Sem cerimónias. Sem compreender. Ser absorvido. Subjugado. E agradecer. Perder o norte, o fio, os sentidos. E gostar. Divertir. Desprender. Chafurdar na lama. Acriançar. Rir. Começar a chorar. Ser levado, enlevado, enganado, desprotegido, confuso, cruel. Desviado.
 
É muito bom e faz muito bem.
Sair da vida. Cair na morte. Sofrer. Iludir. Acabar. Permanecer na cama. Pensar em tudo o que se faz como se fosse a última vez. Esmorecer. Querer voltar atrás e fingir que já não se pode. Confessar. Pedir. Esvaziar. Ter pena de quem se foi e do que se fez. Rejeitar o perdão, a redenção, a última oportunidade.
 
É muito bom e faz muito bem.
É tão bom e faz tanto bem que, às vezes, cada vez mais, não apetece regressar. Tanto que só nos resta levantarmo-nos de onde caímos e, deixando-nos conduzir por tudo o que nos tolheu os passos desde o dia em que começámos a errar, na contramão das nossas almas, só nos resta procurar um sítio onde a nossa ida não se reconhece, não se aceita, não faz sentido, e entrar.
Entrar aqui. Daqui de onde nunca se sai. E ficar.”
 
Miguel Esteves Cardoso

Posted by sara at 17:52:10 | Permalink | Comments (5)

Friday, June 1, 2007

O meu 1º carro

Não estando a indústria seguradora desenvolvida em Timor, dou-vos a conhecer o primeiro carro que fui obrigada a  comprar: um jeep pajero de 7 lugares e de 97.

Infelizmente tem uns problemazitos e para já teve de ficar no fundo da ravina!

(o meu lugar era o da fila de trás, do lado esquerdo) 

Posted by sara at 14:00:25 | Permalink | Comments (10)