Barreiras arquitectónicas em 3 idas ao teatro
12 de Maio - FULGOR E MORTE DE JOAQUÍN MURIETA
Espectáculo de abertura da 26ª edição do Festival Fazer a Festa, Teatro Art’Imagem
de Pablo Neruda,
“A sua cabeça cortada reclamou esta cantata e eu escrevi-a não só como uma oratória insurreccional, mas como uma certidão de nascimento.”
encenação de Roberto Merino ,
Assim também parte Murieta para a Califórnia dourada que se converte numa espécie de miragem: ´os homens sempre pensaram que o ouro lhes daria a felicidade.(Óscar Wilde)´. O poeta canta então a épica, trágica e ´longa história de um homem inflamado, história de meu compatriota, o honorável bandido Don Joaquin Murieta´ porque a vida real na Califórnia é bem diferente da sonhada. Lá longe na Grande América, Joaquin conhece melhor a injustiça e como é difícil ser estrangeiro pobre nesse país. Murieta ´galopa para vingar seu irmão que um gringo matou pela costas e levanta a mão, afastando-se violento com um cavalinho de pau nas mãos do vento´.
Referência aleatória
TeCA - Teatro Carlos Alberto
Impecável.
Se andar de cadeira de rodas fosse sempre assim, ninguém quereria cansar as belas pernas. Apesar da peça ter sido um pouco chata e da minha completa incapacidade de concentração no que se estava a passar no palco (os meus pensamentos recentemente suspensos estavam a meio mundo de distância), devo dizer que entre rampinhas, elevadores e corredores largos, quase nem me senti deficiente nesta minha primeira investida pela Invicta como semi-inválida. O único senão foi mesmo a entrada no teatro que tem um degrau descomunal. O que vale é que o meu pé coxinho me salva, e bastou um saltinho para entrar no paraíso da cadeira de rodas. Poderia ter sido absolutamente autosuficiente se tivesse mais experiência na manivela ao subir rampas. A ajuda da Anastácia e do Rodrigo que me acompanhavam foi quase só necessária pela novidade que este acessório que me acompanha (e me mobiliza) representa. Claro está que o que me impressionou ligeiramente foram os olhares de quem não espera ver uma jovem gata como eu confinada a uma cadeira de rodas.
Parabéns ao arquitecto do TeCA consciencializado para a causa do deficiente motor.
15 de Maio - CARA DE FOGO
TUP - Teatro Universitário do Porto
de Marius von Mayenburg,
“Qualquer relação amorosa entre pessoas é uma prova do quanto-se-agüenta”
encenação de Luciano Amarelo,
Cara de Fogo é uma peça de contradições de sentimentos e acções. Voltar a encontrar o momento do nascimento, reviver a sensação do momento da saída, em sofrimento, do ventre da mãe. É esta a ideia que move Kurt, um jovem adolescente, com fascínio pelo fogo, no seio de uma família presa num limbo entre de falta de comunicação e a ausência de amor. Uma relação incestuosa, entre Kurt e Olga, surge como um incêndio que os consome. Entretanto, aparece Paul, que se torna namorado de Olga e rapidamente passa a fazer parte do quotidiano da família. Num auge de insanidade e destruição, Kurt queima tudo o que provoque uma chama deslumbrante. A mesma chama interior de Kurt que só poderá ser extinta no dia em que conseguir recordar o instante violento do seu nascimento.
Referência aleatória
Museu do Carro Eléctrico
Mais ou menos.
A aventura começou com a inserção da cadeira de rodas no carro da Ana. O Miguel não trouxe o Mini Cooper, muito conscienciosamente, mas ainda assim não foi fácil encaixar a cadeira na mala do Peugeot 206. Chegados aos Museu do Carro Eléctrico, foi necessário dar um primeiro salto ao pé coxinho para passar o portão e depois o que estragou tudo foi o piso em paralelo. Os pneus pouco cheios não facilitaram o processo. Foi-nos sugerido que visitássemos o Museu enquanto esperávamos que a peça começava e para isso abriram um portão especial. Quem está debilitado não gosta de se sentir especial nos edifícios. Roda que se enfia nos carris do eléctrico, ou nos espaços entre paralelos. Que cansaço.
A peça, espectacular. A melhor que já vi em toda a minha vida, não tanto pela história, mas pelo espaço, pelo som, pelos actores, pelo ambiente que foi criado. Quem tiver oportunidade de ver, caso haja reposição no mesmo local, que não a perca.
28 de Maio - O ARRANCA CORAÇÕES
INPUT 07 1º Festival Anual de Teatro da U. Porto, Engenharte, FEUP
a partir de Boris Vian,
“Tentei contar às pessoas umas histórias que elas nunca tivessem ouvido contar. Parvoíce pura, parvoíce dupla – só gostam do que já conhecem.”
encenação de António Júlio, António A. Silva e Andreia Moisés,
Ao tomarmos cada uma das nossas palavras habituais ao pé da letra, deparamo-nos com o país monstruoso que nos cerca, o dos nossos desejos mais implacáveis, onde cada amor esconde um ódio, onde os homens sonham com navios, e as mulheres com muralhas.
Referência aleatória
Estúdio Latino, Teatro Sá da Bandeira
Experiência péssima. Terrível.
Acompanhada pela Luísa, Rui, Daniela e Filipe, entro no teatro, onde o amável pica dos bilhetes me diz “Menina, vai ter de subir isto tudo”. Do sítio onde estou só vejo um vão de escadas de digamos uns 15 degraus. Pergunto ao senhor se me pode levar ao colo. Ele responde que tem de controlar as entradas. Boa desculpa. Felizmente já posso andar de muletas. Apesar de assustadora no meu estado, a escadaria é fantástica e à filme. Com rococós dourados e tapetes vermelhos e se eu não estivesse com o gesso mas sim com um belo tacão no pé sentir-me-ia uma princesa. A clavícula partida condiciona o meu movimento de ombros que permitiria avaliar com uma olhadela lá para cima o número de degraus a partir do rés do chão. Quando chego ao primeiro patamar vejo que afinal o vão não acaba ali. Tenho mais 2 andares para trepar.
(Lembro-me de na noite do acidente estar deitada no chão da montanha com uma inclinação de 75 graus, cabeça para cima, pés para baixo, como haveria de ser, e de querer içar o meu corpo até um sítio onde me podia deitar de lado e dessa forma deixaria de sentir o pé a latejar com o sangue todo que descia até à fractura. As dores não permitiam que o meu lado esquerdo funcionasse. Usava o braço direito para agarrar as plantas e me puxar. Subia 10 centímetros, deslizava 1 metro. Deixo-me ficar.)
Deixo de ser auto-suficiente e peço ajuda. A Luísa e a Daniela, como verdadeiras cavalheiras, fazem cadeirinha e carregam-me até lá acima, à mini sala de espera do Estúdio Latino. Já passa das 21h30 mas a porta ainda não abriu. Fico ali de pé, com a perna apoiada na muleta e espero. Entro, fico logo na primeira fila para não me cansar mais.
A saída, depois da tertúlia que tomou lugar após a peça, também foi épica. Como as portas “normais” já tinham fechado (why?) tivemos de subir tantos degraus quantos a sala tinha até chegar à porta dos bastidores para depois descer esses todos mais o número de outros (dos primeiros), embora desta vez sem a pompa e circunstância dos rococós de veludo vermelho. Cimento para aliviar a potencial queda. Lá saímos pelos fundos.
Não fosse a peça ter sido fantástica, a experiência teria sido verdadeiramente terrível porque me senti verdadeiramente debilitada. Parabéns Ana e Miguel, parabéns ao grupo.
Muito obrigada pelo comentário à Cara de Fogo!!!!!!
Não foi o melhor espectáculo que já vi na vida, nem nada que se pareça, mas estavam de facto bastante bem. Fico contente pelo comentário, já que o meu razoável acompanhamento da construção do espectáculo não me permite observar objectivamente. Tal como não sei ver a cara como um todo daquela pessoa que está tão perto e sempre. Tal como um ex-namorado tem uma cara diferente da de quando era namorado! : )
Curiosamente tb vi o espectáculo de ontem…hummm…mas não gostei (não querendo ser nazi!). O Porto é mesmo minúsculo! Até pq cheguei a este blog através de outro professor em Timor! Afinal as ex-colonias tambem sao minusculas! : )
As melhoras e beijinhos!
Para esses tipos de problemas, o melhor é discuti-los com um arquitecto.
Bjinhos
é assim a vida, as dificuldades dos outros não são prioridade, e ninguem (quase ninguem ) pensa que um dia pode ficar ( definitivamente ou não) com a mobilidade limitada e com necessidades “especiais”.
quando pensava(esperava) q os estragos do acidente não tivessem sido tão graves e pressentindo q podiam querer manter-se por lá, trabalhando, perguntei-me como seriam os acessos da faculdade para quem usa cadeira de rodas ou ate mesmo muletas.
e se na Invicta é como nós vemos, como será por lá? mas por cá sempre há alguns a fazer alguma coisa para melhorar a situação, mas por lá? alguem quer fazer alguma coisa? aceitam-se inscrições para um grupo de trabalho…
Ler as tuas aventuras e desventuras por entre cantos e recantos do Sá só me fez apreciar ainda mais a tua presença.
Ficamos a dever-te, pelo menos, umas 3 ou 4 idas a peças de teatro… afinal estamos a ficar uns especialistas no assunto
beijo