Wednesday, May 23, 2007

Epifania

Olho para o telemóvel dela e vejo que está a usar o modo reunião. Na televisão o Porto é campeão porque ganha a uma equipa qualquer. Ela fala sobre tudo e mais alguma coisa, sobretudo sobre trivialidades que há bem pouco tempo estavam bem longe de mim. Os rostos à minha volta parecem-me todos familiares, cúmplices e vazios. Imagino o telemóvel a tocar aos berros. Tão alto que dói.

Volto agora, e fico sempre, num quarto diferente, que também tem uma janela e uma vista não para a palhota mas para o prédio gigante da Bolsa de Valores do Porto. Arrasto-me ora ao pé coxinho ora de muleta ou muletas até à varanda, onde deixo o Sol aquecer um pouco as cicatrizes na minha cara. Lembro-me do telemóvel em modo reunião. Não poderia tocar aos berros. O modo reunião é baixinho. Ai eu estava tão longe de reuniões. Sinto-me tão afundada nesta melancolia do ter voltado sem querer. Ainda me parece que isto é tudo um sonho longo, fruto da profilaxia da malária. 

Surreal.

Brutal.

Violento.

E é por isto que deixei de escrever. Não me sinto bem em partilhar a minha infelicidade por estar de volta. Até a doçura de Timor foi amenizada, com esta saída brusca. As recordações estão presas num momento em que a terra aluiu, num espaço de cinco centímetros onde a roda não devia ter passado. No momento e a partir desse momento. 

Uma sucessão de desgraças.

O acidente.

A espera.

O hospital.

O diagnóstico.

Os diagnósticos.

A evacuação.

A médica do seguro.

O novo diagnóstico.

A operação.

O tempo de recuperação.

O não voltar a Timor. A curto prazo pelo menos. O não ter objectivos definidos. Só me apetece lamentar. “Os céus choram a existência (…)” disto tudo. 

Enquanto isso, os céus estrelados e guiados pelo cruzeiro do Sul celebram a existência do respirar a fundo e começar a sonhar no Timor profundo.

Posted by sara at 00:57:47
Comments

9 Responses to “Epifania”

  1. Neca says:

    Não te quero que te sintas inútil! por isso convido te para vires arrumar o meu quarto! ou para me lavares o carro!

    Vês que bom que sou para ti!

    Vemo nos logo!

  2. nuno says:

    olá! as melhoras do pé e boa recuperação. bjs

  3. A. says:

    Atira abaixo da varanda uma linha que eu amarro-lhe uma prenda para te fazer sentir melhor. Gostas de livros?

    Consigo entender muito bem o que descreves.

  4. manuela says:

    queres ir ver a exposição do caderno de viajem do Manel Aguiar, outro apaixonado por Timor ?

  5. A. says:

    estou a escrever um livro e o teu testemunho sobre timor podia ser muito interessante? terias disponibilidade para uma conversa?

  6. frady says:

    o dia de ontem já se sabe como foi e olha-se para ele, seja qual for o sentimento dominante, com uma certa ternura. É uma questão de tempo, uma questão de luto. Chamemos-lhe assim!
    O de amanhã, esse é traidor, traiçoeiro, manhoso… ou nos presenteia galantemente ou nos atira para um poço aparentemente sem corda. Mas esta lá estará, está sempre. Nem que seja só preciso esperar pelo outro amanhã…

    Beijinho

  7. sara says:

    A.,

    Claro que sim!
    (peço desculpa pelos meses de atraso na resposta… deves saber como me encontrar…)

    beijo

Leave a Reply