Wednesday, May 30, 2007

andy warhol

I broke

something

today,

and I realized

I should break

something

once a week… 

to remind me how

fragile

life

is. 

Posted by sara at 15:42:47 | Permalink | Comments (3)

violentamente

eminente

inevitável

violento.

inebriante

etéreo

idílico.

o poeta diz que palavras são coisas.

há coisas pelas quais nutro

sem complemento indirecto.

Posted by sara at 02:58:20 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, May 29, 2007

Barreiras arquitectónicas em 3 idas ao teatro

12 de Maio - FULGOR E MORTE DE JOAQUÍN MURIETA
Espectáculo de abertura da 26ª edição do Festival Fazer a Festa, Teatro Art’Imagem

de Pablo Neruda,
“A sua cabeça cortada reclamou esta cantata e eu escrevi-a não só como uma oratória insurreccional, mas como uma certidão de nascimento.”
encenação de Roberto Merino ,
Assim também parte Murieta para a Califórnia dourada que se converte numa espécie de miragem: ´os homens sempre pensaram que o ouro lhes daria a felicidade.(Óscar Wilde)´. O poeta canta então a épica, trágica e ´longa história de um homem inflamado, história de meu compatriota, o honorável bandido Don Joaquin Murieta´ porque a vida real na Califórnia é bem diferente da sonhada. Lá longe na Grande América, Joaquin conhece melhor a injustiça e como é difícil ser estrangeiro pobre nesse país. Murieta ´galopa para vingar seu irmão que um gringo matou pela costas e levanta a mão, afastando-se violento com um cavalinho de pau nas mãos do vento´.
Referência aleatória

TeCA - Teatro Carlos Alberto
Impecável.
Se andar de cadeira de rodas fosse sempre assim, ninguém quereria cansar as belas pernas. Apesar da peça ter sido um pouco chata e da minha completa incapacidade de concentração no que se estava a passar no palco (os meus pensamentos recentemente suspensos estavam a meio mundo de distância), devo dizer que entre rampinhas, elevadores e corredores largos, quase nem me senti deficiente nesta minha primeira investida pela Invicta como semi-inválida. O único senão foi mesmo a entrada no teatro que tem um degrau descomunal. O que vale é que o meu pé coxinho me salva, e bastou um saltinho para entrar no paraíso da cadeira de rodas. Poderia ter sido absolutamente autosuficiente se tivesse mais experiência na manivela ao subir rampas. A ajuda da Anastácia e do Rodrigo que me acompanhavam foi quase só necessária pela novidade que este acessório que me acompanha (e me mobiliza) representa. Claro está que o que me impressionou ligeiramente foram os olhares de quem não espera ver uma jovem gata como eu confinada a uma cadeira de rodas.
Parabéns ao arquitecto do TeCA consciencializado para a causa do deficiente motor.


15 de Maio - CARA DE FOGO
TUP - Teatro Universitário do Porto

de Marius von Mayenburg,
“Qualquer relação amorosa entre pessoas é uma prova do quanto-se-agüenta”
encenação de Luciano Amarelo,
Cara de Fogo é uma peça de contradições de sentimentos e acções. Voltar a encontrar o momento do nascimento, reviver a sensação do momento da saída, em sofrimento, do ventre da mãe. É esta a ideia que move Kurt, um jovem adolescente, com fascínio pelo fogo, no seio de uma família presa num limbo entre de falta de comunicação e a ausência de amor. Uma relação incestuosa, entre Kurt e Olga, surge como um incêndio que os consome. Entretanto, aparece Paul, que se torna namorado de Olga e rapidamente passa a fazer parte do quotidiano da família. Num auge de insanidade e destruição, Kurt queima tudo o que provoque uma chama deslumbrante. A mesma chama interior de Kurt que só poderá ser extinta no dia em que conseguir recordar o instante violento do seu nascimento.
Referência aleatória

Museu do Carro Eléctrico
Mais ou menos.
A aventura começou com a inserção da cadeira de rodas no carro da Ana. O Miguel não trouxe o Mini Cooper, muito conscienciosamente, mas ainda assim não foi fácil encaixar a cadeira na mala do Peugeot 206. Chegados aos Museu do Carro Eléctrico, foi necessário dar um primeiro salto ao pé coxinho para passar o portão e depois o que estragou tudo foi o piso em paralelo. Os pneus pouco cheios não facilitaram o processo. Foi-nos sugerido que visitássemos o Museu enquanto esperávamos que a peça começava e para isso abriram um portão especial. Quem está debilitado não gosta de se sentir especial nos edifícios. Roda que se enfia nos carris do eléctrico, ou nos espaços entre paralelos. Que cansaço.
A peça, espectacular. A melhor que já vi em toda a minha vida, não tanto pela história, mas pelo espaço, pelo som, pelos actores, pelo ambiente que foi criado. Quem tiver oportunidade de ver, caso haja reposição no mesmo local, que não a perca.



28 de Maio - O ARRANCA CORAÇÕES
INPUT 07 1º Festival Anual de Teatro da U. Porto, Engenharte, FEUP

a partir de Boris Vian,
“Tentei contar às pessoas umas histórias que elas nunca tivessem ouvido contar. Parvoíce pura, parvoíce dupla – só gostam do que já conhecem.”
encenação de António Júlio, António A. Silva e Andreia Moisés,
Ao tomarmos cada uma das nossas palavras habituais ao pé da letra, deparamo-nos com o país monstruoso que nos cerca, o dos nossos desejos mais implacáveis, onde cada amor esconde um ódio, onde os homens sonham com navios, e as mulheres com muralhas.
Referência aleatória

Estúdio Latino, Teatro Sá da Bandeira
Experiência péssima. Terrível.
Acompanhada pela Luísa, Rui, Daniela e Filipe, entro no teatro, onde o amável pica dos bilhetes me diz “Menina, vai ter de subir isto tudo”. Do sítio onde estou só vejo um vão de escadas de digamos uns 15 degraus. Pergunto ao senhor se me pode levar ao colo. Ele responde que tem de controlar as entradas. Boa desculpa. Felizmente já posso andar de muletas. Apesar de assustadora no meu estado, a escadaria é fantástica e à filme. Com rococós dourados e tapetes vermelhos e se eu não estivesse com o gesso mas sim com um belo tacão no pé sentir-me-ia uma princesa. A clavícula partida condiciona o meu movimento de ombros que permitiria avaliar com uma olhadela lá para cima o número de degraus a partir do rés do chão. Quando chego ao primeiro patamar vejo que afinal o vão não acaba ali. Tenho mais 2 andares para trepar.
(Lembro-me de na noite do acidente estar deitada no chão da montanha com uma inclinação de 75 graus, cabeça para cima, pés para baixo, como haveria de ser, e de querer içar o meu corpo até um sítio onde me podia deitar de lado e dessa forma deixaria de sentir o pé a latejar com o sangue todo que descia até à fractura. As dores não permitiam que o meu lado esquerdo funcionasse. Usava o braço direito para agarrar as plantas e me puxar. Subia 10 centímetros, deslizava 1 metro. Deixo-me ficar.)
Deixo de ser auto-suficiente e peço ajuda. A Luísa e a Daniela, como verdadeiras cavalheiras, fazem cadeirinha e carregam-me até lá acima, à mini sala de espera do Estúdio Latino. Já passa das 21h30 mas a porta ainda não abriu. Fico ali de pé, com a perna apoiada na muleta e espero. Entro, fico logo na primeira fila para não me cansar mais.
A saída, depois da tertúlia que tomou lugar após a peça, também foi épica. Como as portas “normais” já tinham fechado (why?) tivemos de subir tantos degraus quantos a sala tinha até chegar à porta dos bastidores para depois descer esses todos mais o número de outros (dos primeiros), embora desta vez sem a pompa e circunstância dos rococós de veludo vermelho. Cimento para aliviar a potencial queda. Lá saímos pelos fundos.
Não fosse a peça ter sido fantástica, a experiência teria sido verdadeiramente terrível porque me senti verdadeiramente debilitada. Parabéns Ana e Miguel, parabéns ao grupo.

Posted by sara at 19:51:06 | Permalink | Comments (5)

Wednesday, May 23, 2007

Epifania

Olho para o telemóvel dela e vejo que está a usar o modo reunião. Na televisão o Porto é campeão porque ganha a uma equipa qualquer. Ela fala sobre tudo e mais alguma coisa, sobretudo sobre trivialidades que há bem pouco tempo estavam bem longe de mim. Os rostos à minha volta parecem-me todos familiares, cúmplices e vazios. Imagino o telemóvel a tocar aos berros. Tão alto que dói.

Volto agora, e fico sempre, num quarto diferente, que também tem uma janela e uma vista não para a palhota mas para o prédio gigante da Bolsa de Valores do Porto. Arrasto-me ora ao pé coxinho ora de muleta ou muletas até à varanda, onde deixo o Sol aquecer um pouco as cicatrizes na minha cara. Lembro-me do telemóvel em modo reunião. Não poderia tocar aos berros. O modo reunião é baixinho. Ai eu estava tão longe de reuniões. Sinto-me tão afundada nesta melancolia do ter voltado sem querer. Ainda me parece que isto é tudo um sonho longo, fruto da profilaxia da malária. 

Surreal.

Brutal.

Violento.

E é por isto que deixei de escrever. Não me sinto bem em partilhar a minha infelicidade por estar de volta. Até a doçura de Timor foi amenizada, com esta saída brusca. As recordações estão presas num momento em que a terra aluiu, num espaço de cinco centímetros onde a roda não devia ter passado. No momento e a partir desse momento. 

Uma sucessão de desgraças.

O acidente.

A espera.

O hospital.

O diagnóstico.

Os diagnósticos.

A evacuação.

A médica do seguro.

O novo diagnóstico.

A operação.

O tempo de recuperação.

O não voltar a Timor. A curto prazo pelo menos. O não ter objectivos definidos. Só me apetece lamentar. “Os céus choram a existência (…)” disto tudo. 

Enquanto isso, os céus estrelados e guiados pelo cruzeiro do Sul celebram a existência do respirar a fundo e começar a sonhar no Timor profundo.

Posted by sara at 00:57:47 | Permalink | Comments (9)

Tuesday, May 22, 2007

onde o sol se põe e nasce

Como o nevoeiro para o Dom Sebastião, lá para os lados dos Mouros, ficará o pôr do Sol em mim, na terra do Sol nascente.

Uma sucessão de desgraças que só me apetece lamentar, e que ilustro com a praia da Areia Branca agora bem longe de mim e que não voltei a ver desde que saí, para ir passar o fim de semana fora, ao monte Ramelau.

Posted by sara at 16:35:01 | Permalink | Comments (3)

Friday, May 11, 2007

3 ideias a não esquecer

Porto, 11 de Maio de 2007

 

Efeitos de jetlag, insónias terríveis.

Acordo às 4 da manhã a pensar na temperatura que estará à porta da casa 2, no bairro. Que estarão eles a fazer… 

Decido reler o meu caderno dos 16 anos religiosamente caligrafado, uma relíquia do trabalho manual, e encontro as seguintes 3 ideias que nunca esqueci e que quero partilhar: 

1º 

“A fila é circular e só acaba quando o primeiro chegar. O fim vem logo antes do começo e um relógio do avesso dá o sentido natural: dessa vida tu só leva a vida que tu leva.” 

2º 

“E se tudo fosse doce, não existiria sal.

Para achar alguma coisa, alguém a teve de perder.

(o nada é uma das coisas mais difíceis de entender)

É inverno no inferno.

E nevam brasas.”

 3º

“O zero saiu da tabuada

O ó saiu do alfabeto

Começaram a brincar

Dentro de um caderno aberto

O zero entrou no alfabeto

O ó entrou na tabuada

Até hoje

Ninguém deu por nada”

Posted by sara at 06:59:45 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, May 8, 2007

Resumo do Fim de semana

Posted by sara at 14:36:54 | Permalink | Comments (2)

Diário de uma viagem interminável

Darwin, 8 de Maio de 2007

Como já todos sabem, tivemos um pequeno grande incidente, descrito na seguinte crónica do Quim. Os nomes são fictícios. Quem fazia parte da viagem no momento do acidente eram 6 profes jovens e um guia timorense que nos ia levar ao aclamado nascer do Sol no ponto mais alto de Timor Leste. Ficamos pelo caminho.

Já estou a regressar à pátria, com a cadeira de rodas, o gesso, a tíbia, perónio e clavícula “facturadas” e umas quantas colorações negras-amareladas-azuis-esverdeadas no corpo.

“Parte I

O descanso do meu corpo é tremulamente interrompido pela inconstância de um barulho intermitente. Como seria habitual num qualquer dia neste lugar, as 7:17h são um marco inseparável do distúrbio. O silêncio do repouso é gradualmente interrompido pelo marcador de tempo. “Mais dez minutos”, penso eu. E assim silencio momentaneamente o despertador.

O sábado desperta radiante. Tal como eu em dias de viagem. O misticismo da viagem talvez se materialize num muito querer e pouco saber dos seus contornos. A surpresa constante de um percurso que se vai descobrindo, esboçando, orientado por um olhar único e meu. Um tão singelo olhar como quem procura fora, o olhar para dentro.

A temperatura como sempre não pede grandes protecções e a calmaria matinal assola todo o bairro em que me encontro. Ambicionamos chegar ao Ramelau, o pico mais alto desta ilha divida. Uma ilha de picos mas que como em todos os picos, há sempre um mais alto que todos os outros, daí a sua escolha.

O transporte escolhido fora um Jipe que a muito custo conseguimos resgatá-lo a Pedro. Pedro é um sóbrio proprietário da agência de aluguer de automóveis, mecânico, dono de uma mercearia… faz de tudo um pouco na vida como qualquer um dos locais timorenses em que a quantidade do seu trabalho não o permite, mesmo assim, rejeitar uns dólares de última hora. A ausência de carros neste país faz com que quem tenha carro tenha um meio de subsistência, assim ter carro é um bem mais que precioso e o aluguer deste quase inalcansável. Mas nada que dólares e meia dúzia de palavras certas não resolvam!

Assim demos início à nossa travessia. Com o atraso habitual das intempéries do não planeado e das necessidades conjugais de cada um, partimos rumo ao pico mais alto. E de facto somente julgaríamos saber o nosso fim, o Nascer do sol no Ramelau! Diz quem sabe, ser um evento magnífico! Digno de autênticas peregrinações de quem se consegue aventurar a encontrar vida para além do sentido da sobrevivência, para quem ainda não sabe desta classificação, aqui estes são os malai.

Como bons malais, navegamos escarpa acima, deslumbrados. Envoltos por uma infindável vegetação que nos abraça e envolve e nos entranha. Díli começa a esvanecer no horizonte, suave, calmo, tranquilo como um gigante adormecido. Na subtileza de quem observa, este gigante parece terno, afável. Da montanha deslumbra-se um Cristo Rei sem história somente belo e afoito dando as boas vindas ao mar. A arquitectura da cidade orienta-se como outra qualquer cidade num outro qualquer recanto do mundo, para o liso azul-turquesa.

“Como é possível ser uma cidade instável!” questionei-me ao ser confrontado com as memórias de blindados, tropas e demonstrações de força que se dizem necessárias para manter a ordem nos “adolescentes”. Montanha a cima, fotografia abaixo e para todos os outros ângulos procuramos reter todos os recantos e encantos que nos afrontam.

Estou mesmo feliz, já há algum tempo que necessitava disto. O prazer que me consome. A estrada define-se com o passar dos momentos e o clima entre os seis viajantes não podia ser melhor. Os caminhos são sinuosos mas pacíficos. A estrada assume contornos rasgados na montanha que penetram nas povoações de Timor mais profundo. Consegue-se respirar a pacatez de uma vida no isolamento que a geografia nos dá, um sorriso, um “boatardí” a quem se cruza. Sinto-me em perfeita sintonia com o caminho que nos guia somente aqui e ali perturbada pelo abrandar para deixar passar um novo carro. Jipes de malais, Microletes atoladas de pessoas, animais e todas as suas pertenças intrometem-se no nosso caminho e permitem mais um agradável diálogo de quem viaja. Rimo-nos. Imagino que acenar talvez não seja a melhor forma de cumprimentar pessoas que se encontram penduradas nas Microletes e apartir daqui passamos somente a verbalizar. Cantamos. O Jipe não tem rádio então há que nos fazermos ouvir para evitar a monotonia do motor. A Maria canta, canta e encanta com a ajuda do seu mp3, fazendo assim uma função de karaoke colectivo! Os marcos na estrada anunciam possíveis monumentos, que por estas bandas surgem timidamente associados a eventos primários de força ou religiosos. Um marco à II Guerra Mundial, igrejas e mini santuários, em Ainaro um monumento aos mártires da independência e já em pleno Maubice um cruzeiro de agradecimento aos portugueses que por cá passaram e tantas saudades deixaram nos mais antigos.

Maubice. Pequena cidade montanhesa a fazer lembrar uma qualquer cidade serrana das nossas mas mais pequena. Tem uma igreja e uma pousada num cume e um restaurante homónimo de um dos nossos tripulantes. Tudo o resto é paisagem, e que paisagem! Lost world tropical.

Após cinco horas de viagem, a lua sobrepõe-se ao sol. As estrelas no céu só podem anunciar o perdurar do meu estado. Estou a gostar mesmo desta viagem, da condução do Jipe, da companhia das pessoas e sabendo que para mim ainda a posso prolongar por mais uns dias, juntamente com o Robert e o Sebastien. Ao contrário dos outros que iriam regressar no dia seguinte.

Os guardiães da Pousada de Maubice subsistem na pacatez de uma possível ameaça dormindo ao som da música. Nós seríamos naquela noite a ameaça, quebrando a monotonia de mais um dia. Jantamos e repastamos noite dentro na preparação da caminhada. Segundo nos informamos a subida ao pico mais alto começava com uma viagem de 28km com uma duração aproximada de duas horas e meia até ao supé da montanha em Hatu Builiko. Sabíamos que deveríamos levar agasalhos uma vez que este dista 2960m da linha da água e teríamos pela frente cerca de duas horas de caminhada sem a protecção do habitáculo.

A linha que nos guia pronuncia-se enleada com a paisagem. Os sobressaltos e intermitências da estrada introduzem um carácter mágico e misterioso à viagem. Curva contra curva, montanhas, locais que se deslocam para o seu trabalho carregando o seu “ganha pão”, búfalos, cavalos, abrigos; vão preenchendo o cenário que cada vez mais nos absorve e nos precipita. Rodeados por tudo isto navegamos rumo à subida que soa a escalada do tão desejado palco de nascer do sol. “

“Parte II

Traíste-me… Era a ti que nós queríamos ver… E não a todas as outras iguais a ti. As Estrelas salpicavam um mar escuro de árvores, gravilha, arbustos e bem lá no fundo da escarpa algo destoava da paisagem. Um Jipe.

Sentado na encosta recostei-me entorpecido. Reparo que ainda possuo telemóvel e procuro nele vida mas em vão. Não tem rede. A minha cabeça… não a sinto senão dormente apelando ao toque como que para confirmar a sua existência. Uma suave e húmida textura induz-me a ausência de cabelo. O pânico nem tem tempo para se instalar. Começa a escalada rumo à estrada, é como trepar um escadote de gravilha e arbustos com 100 metros de tamanho. Tenho que chegar à estrada nem que seja a última coisa a fazer nesta vida. O que nos foi acontecer! Calma, cada coisa a seu passo… Vamos começar por compor o escalpe e “montar” a minha cabeça.

Estou consciente, sempre estive consciente, questiono-me será que o Robert tem razão quando diz que saber morrer é só saber seleccionar o momento de desligar? Não tive esse saber… Deito-me na calçada que mais parece um caminho de cabras incertas, os pés ainda meios na encosta… mas não dava para mais. Esperança de um auxílio. Frio. Começa o primeiro alarme, as meias e a t-shirt assumem-se como insuficientes. O sangue jorra como se de um ribeiro se tratasse a descer a sua encosta; ainda aturdido da subida íngreme inspecciono mais uma vez o telemóvel. Em vão, vai ter mesmo que ser assim. SOCORRO… AJUDA… repetidamente.

O eco esbate-se pelas montanhas sem que daí surgisse uma vibração no nosso sentido. Nosso… Estou só. Pressiono com mais força ainda a cabeça. Não estanca, mas persisto. Tento levantar-me mas em vão. Em ciclos curtos vou repetindo as palavras mágicas. Ninguém responde… Será este o nosso fim? Estou fraco. O meu corpo escoa-se como uma ampulheta em dia de exame, procuro incessantemente o telemóvel que se encontra apertado na minha mão direita, nada. Não há rede. Com a mão esquerda a pressionar firmemente a cabeça arrisco-me a uma previsão.

Ao barulho da brisa que bate nos ramos sobrepõe-se agora os passos acelerados de quem precisa. Pessoas locais dirigem-se para o meu corpo postado no seu caminho. Quase tropeçam nele mas não se atrasam, imperturbáveis, seguem em frente como se de um outro tipo de luta se tratasse. “Sr. AJUDA!”. Finalmente a resposta ao meu grito, pensei precipitadamente. Ninguém parou, e passou e passou…

Estas crianças no saber, adolescentes no agir e envelhecidos no não ser, continuaram bravamente o seu destino rumo ao pão que lhes dá a vida.

O casulo que me reveste não consegue ser suficiente… Se ao menos fosse uma borboleta ainda teria mais um dia! Vou gravar… “Mãe, peço desculpa mas tudo ficou por aqui. Havia ainda muito para dizer, para fazer, para viver. Ainda não sei, mas se te ajudar saio satisfeito por jamais ter feito algo que não quisesse. Orgulho-me de mim, de ti, dos avós e de todos os que escolhi e me escolheram. Adoro-te.”.

Mais descansado, sem nada a perder continuo a minha saga. AJUUDAA! Sr. Fala em Maubice de acidente! Polícia! Ambulância… Alguma coisa que seja!

Vera, a nossa tradutora de tétum vai lá atrás com Marie. A viagem prossegue como nada nem ninguém nos fizesse parar. A meio: Sebastien, o nosso guia local que não fala português e Sílvia, a nossa professora de Português. A viagem que roçava a aventura na noite via-se emocionantemente pacífica. Falava-se de todos os contos que revestem aquele lugar místico. Dizem que para lá existem homenzinhos verdes! Gnomos! E que se os virmos lhes podemos pedir três desejos. Conta-se também que durante a caminhada nunca se pode perguntar se falta muito. Faz com que o Ramelau fique mais longe.

Imagino como Marcus se deve sentir. Por muito que o tétum possa derivar do português, encontra também nas suas raízes outras línguas e dialectos que não a nossa. Este elemento está claramente no “nosso” habitat natural. Sozinho, calado, a observar o caminho sem compreender. Como a língua é importante… Nem mesmo o mito da torre de babel nos consegue fazer perceber sem viver, pensei.

E lá continuamos o nosso caminho, a evitar cuidadosamente todas as imperfeições que nos enfrentam.

Aluiu. Na ânsia de se manter na superfície não consegue mais senão afundar-se. Primeiramente cai para a esquerda e vou com ele de encontro à pega de protecção, já com o referencial invertido prepara-se para mais uma reviravolta e mais outra e outra até que alguma coisa se intrometa no caminho e o imobilize. Não esperei por esse momento, saltei…

“Saltei no vazio que afinal é bem mais

E vim cair num mundo igual,

Só aparenta

o erro foi deixar,

a ironia da câmara lenta

não nos dar tempo para pensar…””

 

- Joaquim Oliveira

Posted by sara at 06:54:14 | Permalink | Comments (5)