Férias na escola
Fuiloro, Lospalos, 7 de Abril de 2007
Reparo, meia sorridente, meia irritada com a inoportunidade do tique, em duas coisas. A primeira é que estou sempre a dizer “Bonito!” ou “Que bonito!” ou “É muito bonito!”. Simplesmente bonita a simplicidade da vida em Timor. A segunda coisa é que me impressiona, de quando em vez, que exista tanta ausência. De uma forma abundante. Finalmente abandono o silêncio presente em Díli para conhecer a sonoridade dos distritos, onde há falta de tudo e excesso de alguma paz.
Esta viagem dava um filme. Inicialmente seríamos oito. A A. ficou com malária, o Z. estava com febre, o N. adormeceu. Hoje é sábado e a A. ficou a dormir desde 3ª feira e já chegou aos 43 kg; passou a febre ao Z. que acabou por se queimar no escape de uma moto quando saltou da estrada para não ser atropelado nos tumúltos de 4ª feira em Díli; foi uma pena o N. não vir porque tinha o futuro dele para discutir. Formou-se em Economia e Gestão há um ano e está empregado como faz-tudo dos profes malais na UNTL (Universidade Nacional de Timor Lorosae). Especialista das fotocópias. Não pode ser. Quero falar-lhe do microcrédito. Num país onde há falta de tudo, oportunidades de negócio não faltam. 6 da manhã, éramos cinco, e eu tinha acordado 5 minutos antes. O bis de, digamos, 20 lugares (tipo hiace) veio-nos buscar ao quarteirão e ainda bem porque assim assegurámos os nossos lugares sentados. Parámos na marginal, no mercado do peixe à frente do Hotel Turismo, onde se foi juntando um bando de gente e animais e sacos de arroz. Liguei aos meus pais dali, onde o Sol nascia, enquanto o pessoal timorense se grizava a tirar as medidas ao grupinho exótico que corajosamente se juntava no meio deles. De repente tornou-se claro naquele lusco fusco matinal que estava a fazer de isco à malária e não tinha tido tempo de pôr o repelente nos 5 minutos que tive para me levantar e pegar nas coisas. Zumba pra dentro do Bis tomar uma caneca do café timorense que imediatamente entornei por mim abaixo. Mantive-me assim porcalhona até agora. É difícil estar limpa nestas terras. Tenho sempre as unhas pretas. Foi entrando gente e galinhas e mais sacos de arroz e ração de animal e de repente os 20 lugares multiplicaram-se pelo dobro dos viajantes. 5 no telhado, 6 na porta aberta, uns tantos pelo corredor de 20 cm de largura, 2 ou 3 nas traseiras. Uma festa. E assim entramos no Timor profundo rumo a ainda mais leste pela estrada sinuosa que segue a linha do mar com música indonésia de fundo, mas também o bom do pimba tuga. Já não me lembrava de enjoar tanto. Fizemos uma paragem numa praia, onde por 1 dólar comi de pequeno almoço um peixinho vermelho e amarelo grelhado acabado de pescar com arroz de côco. Uma senhora local abriu a sua casa para poder usufruir do “quarto de banho”. Fotos, calor, um aluno que regressava ao distrito para a Páscoa. Soubemos que estávamos a chegar a Lospalos, mais ou menos 200 km e 6 horas depois, quando o “pica” voou da traseira da bis pelo corredor ao nosso lado a pedir 5 dólares.
Chegámos às freirinhas canussianas (?!) do orfanato Dom Bosco, em Lospalos. Elas eram três, parecia que gravitavam em placidez. E nós cheios de fome, cheios de sono. E elas fa-la-vam mui-to de-va-ga-ri-nho. Eu tirei os meus sapatos malcheirosos, e rapidamente nos disseram para irmos almoçar. Tínhamos a mesa posta e uma refeição humilde à nossa espera. Na altura parecia humilde, agora sei que foi do que melhor comi entre lá e agora. A L. levava-lhes umas voltinhas de Fátima e só lhes dizia “irmã, isto é pechisbeque, não vale a pena tentar vender”. Vai não vai, eleições para cá, observadores para lá, vai-se a ver e não tinham cama para nós. A A. liga ao Carlos do Hotel Roberto Carlos, expõe a situação e ele rapidamente nos vem buscar e levar para o Hotel dele. O Carlos é um personagem malai, nascido em Angola, vivido em Portugal e França, com nacionalidade Australiana. É Timorense desde há 9 anos. Gordo que dói, com um je ne sais quoi de reles, mas boa pessoa. Arranjou-nos um quarto sem mosquiteiro nem ar condicionado no Hotel dele, que tem um crocodilo de 3 metros no jardim. Apareceram uns militares no bar, eu aterrei fortemente a tarde toda. Soube depois que os outros que foram passear em Lospalos foram vaiados por um grupo de jovens da Fretilin “Abaixo a geração portuguesa! Abaixo a geração traidora!”
6 da manhã do dia seguinte, alvorada. O Carlos levou-nos na sua pick-up com banda sonora de kizomba angolano em direcção ao mar (a 30km e uma hora de distância), e depois da linha do mar até Com, e pelo mar dentro até Jaco, a ilha sagrada, onde não há habitantes. Só tenho uma palavra – bonito. Bonito bonito bonito. Água azul turquesa, areia branca, coral, peixes de todas as cores, calor. De cortar a respiração e ficar a contemplar. Regressámos a Com eram já 16h. Enquanto eles e mais uns quantos desenterravam o jeep da areia, nós fomos recebidas por um gang de mulheres de boca vermelha (elas passam o dia a mascar uma cena marada) e tais nas mãos. Comprei dois. Um dos quais belíssimo por cinco dólares da falecida avó da senhora Rosa Moreira Mendes, que partilha o nome próprio de flor da minha Violeta e os dois apelidos dos pais dela. Um pouco mais à frente voltamos a cruzar-nos e ela abriu as portas de casa, quis mostrar os quartos, a cozinha,o tear, as estatuetas, os tais. Um amor. Demos um mergulho em Lautem, e adormecemos a caminho dos padres de Fuiloro onde estivemos até agora. Um seminário, colégio, quinta bastante grande. Que no fundo é o que traz sentido a toda a aldeia. O peso da igreja é enorme nestas gentes. O som dos cânticos pascoais ensaiados durante dia e noite tem-se mantido em nossa volta. E o peso do jejum da semana santa tiquetaqueia no meu estômago que só alberga folhinhas verdes e arroz branco. Desta água não bebo, estou longe da civilização. As reservas de coca cola dos padrecos estão a acabar… 5ª feira à noite, depois do passeio ao paraíso, assistimos a uma missa impressionante, ao ar livre aqui nos jardins do seminário. Em tétum, muito cantada, com muitos rituais que serão os mesmos que em Portugal, à excepção dos trajes delas e deles, envoltos em tais, e, claro, toda a envolvente tropical numa noite de céu aberto e constelações meridionais.
O dia seguinte, 6ª feira santa, foi o dia dos ensinamentos. Chamemos-lhe workshops de queijo, primeiro, e por 6 horas, e papel, depois, já ao fim do dia. Apesar das vias sacras, ensaios das missas e sei lá mais o quê, conseguimos juntar um grupinho de 14 mulheres que por aqui trabalham ou aqui perto vivem. Queijo fresco, requeijão, queijo quase curado, uma queijaria autêntica e olhares encantados por já saberem o que fazer ao leite que sobra de tanta vaca leiteira, balinesa e búfala, coalhado com folha de papaia. Mais made in Timor seria impossível. As resmas de papel usado da UNTL que carregávamos aos ombros desde 3ª, finalmente foram feitas em pedacinhos num boião metálico que serve de reserva de água das chuvas que aqui tanto caem e tão intensamente. Maravilhadas, com as folhas (mais parecia cartão) que criaram e enfeitaram com florzinhas apanhadas do jardim dos padres. Prometeram escrever uma carta às professoras com aquele papel, assim que secasse. Quando chegou a altura de provar os queijos, depois do papel, e os trouxemos para a sala de refeições dos padres (e nossa) surpreendentemente não quiseram. Rapidamente percebemos que devia ter sido por termos levado os queijos para aquela sala que para elas deve ser “proibida”. Ele há coisas dos diabos. Mas bem que nos safaram os queijos do jejum. Senão teria de comer a barata vermelha e amarela que tinha no quarto. Ou a cobra preta.
Hoje acordamos às 5 porque a senhora Elsa, mãe do Fidel, aluno da L. e da A. disse que falou com o senhor do bis e pediu para ele nos vir buscar aqui e não às freirinhas e ele disse que afinal não ia para Díli hoje por causa da “situazi” (eles estão sempre a dizer isto) em Manatuto (parece que houve pedrada por lá) mas que ele ia acordar a essas horas para ver se via a mikrolet a passar e dizia-lhes para pararem aqui em Fuiloro. Nada. Raisparta o homem que adormeceu, ou a mikrolet que não passou. O Padre Manuel já arranjou alguém que nos tire daqui. Queremos comer e beber!
Simplesmente Fantástico!!
Dá vontade de comprar o primeiro bilhete de avião e ir para aí
beijos
Que bonito !!!!
Ola Sara
Não me conheces mas eu ja te conheço um pouco. Conheço-te pela forma como vez as coisas, pela capacidade ímpar que tens de descrever aquilo que ves, consegues fazer-me fechar os olhos e sentir os sons , os cheiros, os sabores e todas as sensações que descreves.
Conheço-te tambem pelos olhos da Ines, que me falou de ti de uma forma inebriante, e partilhou comigo este blog , onde pude perceber que es uma Mulher fantastica.
Parabens pela coragem e determinação e obrigado pela partilha dos resultados.
Ana
na maior, a sarinha esta na maior e eu na maior por ver assim a minha sarinha!
já pensaste como há tanto para ver , tanto para apreciar, tanto para aprender e ensinar, numa terra tão pequena como timor leste?
imagino que em cada ilha que não conheço, cada país que não sei o nome há decerto tantos motivos de deslumbramento… e eu a stressar em aldoar porque cagaram na entrada da casa!
que se lixem os mosquitos, que se estripem as baratas e as cobras: tapa-te, põe repelente, faz chá de flor de papaia e aproveita.
logo que possas dá um abraço à neta da dona rosa. diz-lhe que eu quando puder vou aí para ela me ensinar a fazer tais.
pede ao n que se espevite (ou como dizem os malais que imigraram para frança nos anos 70, que se desemerde), que nem parece dele adormecer e perder o passeio ( agora que escrevi isto, será que não foi um acto falho?)
beijos às freirinhas, cumprimentos aos padres. e eu por cá fico à espera de mais novidades.
=) estou a gostar muitos das histórias! Engraçado ver outro mundo. Boa sorte Sara! *
Ps:(também cagaram na entrada do prédio!=P)
olá sara, aqui em barcelona a páscoa foi porreira também. fui a casa de uns tugas q cozinharam bacalhau à brás, e dps fomos prá praia abrir a temporada. em vez de areia branca temos areia preta. em vez de azul turquesa temos azul petróleo. mas eu gosto disto.
Olá Sara: Como gostei de te ler e de ver o teu entusiasmo… Tive vontade de memeter no avião e ir ter contigo a Timor, uma terra que sempre me atraiu!!!!!
Fiquei entusiasmada com o teu entusiamo e espero que sigas em frente com muita pinta…e com uma enorme utilidade para todos…estarei atenta ao site.
Não te conehço bem, mas o teu escrito deixa antever uma pessoa maravilhosa e com uma prosa diga de ser lida!!! Beijos
Olá Sara,
descobri o teu blog por sorte, mas ainda bem que assim aconteceu…
Andei a ler umas coisas que tens escrito e vejo pelo menos que andas inspirada.
Um abraço para ti e continua a escrever para a gente ir acompanhando.
Fico contente por te sentires feliz como os surpreendentes textos revelam . Espero que recuperes do acidente o mais brevemente possivel.
Ainda durante este ano voltarei a Timor.
Um beijo, Manuel