Díli, 23 de Abril de 2007
Ufa, finalmente respiro um pouco para esses lados ocidentais, já que o oriente me tem tido presa na doce maresia do muito fazer, sem fazer assim tanto.
Primeiro, a evacuação.
Julgo que era segunda feira, embora eu aqui perca completamente o fio à meada dos dias passados que não são fim de semana. Decidi passear à tarde para comprar alguns bens um tanto essenciais que havia já um mês que faziam falta. Sair aqui para ir às compras não é meter-me no viper e seguir até ao shopping, mas é sim percorrer toda uma parnóplia de lojas, lojinhas, mercados e armazéns espalhados pela bela cidade feia.
Atravesso o jardim do bairro kafkiano, passo a muralha austera e fico ao descoberto. Viro à esquerda, sigo pelo passeio esburacado durante uns três ou quatro passos, até que me mando para o meio da rua. Em Díli não vale a pena o esforço de usar os passeios. Sigo até ao cruzamento do banco BNU, ou Caixa Geral de Depósitos, e quase já fui incubida à compra por cinco ou seis vendedores de cartões de recarga do telemóvel e mais uns tantos miúdos a vender toranjas, laranjas, anonas, maracujás, bananas e pepinos pendurados no pau que trazem aos ombros. “La precisa”, “”Bôa tardi” , “Não precisa”, “Obrigada”. Espero para atravessar. Espero muito tempo e o que me vale é a sombra da magnólia ultra bem cheirosa que me abriga do Sol ardente das 15 horas. Daqui a nada o céu fica cinza e roxo, como todas as tardes, e depois chora as lágrimas da felicidade por pertencer a uma terra tão verde. Enquanto espero passam uns 30 jeeps brancos da ONU, conduzidos por malais que se esqueceram daquelas paragens que faziam nas passadeiras das terras deles. Sigo até ao Palácio do Governo e aí nem hesito em atravessar bem à frente dos guardas australianos ou de outra nacionalidade qualquer de arma em riste a proteger o edifício imponente do estilo colonial gigante, branco, com arcadas e que ocupa um quarteirão inteiro. Bem em frente ao mar, com a ilha de Ataúro ao fundo que parece hoje estar bem mais próxima do que parecia no outro dia. O jardim do Palácio é perfeito para os guardas timorenses dormirem de papo para o ar, ou jogarem cartas, ou se sentarem de cócoras, à sombra com os calcanhares no chão. Pavoneio-me e quase ninguém tem a coragem de se atravessar assim. Muito menos se não tiver pele branca.
Cruzo-me com a Verónica e o Tozé que trazem quilos de papaias, anonas e outros verdes comestíveis - afinal há mais corajosos. Mais um cruzamento, o da embaixada de Portugal e sigo por aí fora. As ruas são bastante largas e a arquitectura é de edifícios baixos, máximo dois andares, às vezes anos 50, outras vezes de um estilo horroroso indonésio. Quase sempre têm portões de correr abertos, ou semi abertos. Muitas vezes não há janelas,mas sim plásticos. Quase edifício-sim-edifício-não está queimado ou demolido. Todos em muito mau estado, excepto aqueles do governo. Loja chinesa de electrodomésticos, armazém de tecidos, fios, missangas, cuecas, cosmética, restaurante de paredes verde água e cortinas com flores, mercearia. Chego ao Rocella Café, o sítio onde fiz a primeira refeição em Timor - terrível - e onde já comi, depois, o melhor peixinho da minha vida. Gordo, grande, saboroso e fresco. Trata-se de uma espécie de ilha, ladeada por quartos para alugar e com um pátio razoavelmente grande enfeitado com luzes de Natal nas trepadeiras tropicais, cachecol do sporting e do benfica, um cartaz descolorado de uma gaja boa com uma cerveja indonésia namão, mesas e cadeiras de palhinha, 3 grandes poltronas, um bar redondo no centro e sempre o mesmo cd a tocar kizomba, dave matthews (“love of my life” com Santana, imaginem!), entre outros. A minha vinda aqui nesta tarde deveu-se a um cinto lindo lindo lindo lindo de missangas de coral azul turquesa que vi na lojinha de artesanato que há à entrada do estabelecimento. Nunca tinha comprado nada para mim, assim, em Timor. Negócio feito, e não deu para negociar.
Saio do Rocella,viro à esquerda e continuo em direcção ao banco neo-zelandês, ANZ. Loja de bicicletas, de motas, mini mercado, hoteis, cafés, compro donuts porque a fome já aperta. Troco umas palavras arranhadas em tétum com o guarda da esquina, para lhe perguntar onde é a agência de viagens australiana. Quero ir a Sydney. O australiano da agência diz-me que compre pela internet senão fica caro. Ok. Já não preciso de ir comprar bicicleta ao Jacinto porque o Tozé diz que me vende a dele. Como um geladinho por 25 centimos ali ao lado e já só me falta comprar a máquina de tirar água dos garrafões de 19 litros que o Sr. Luis Marinho leva para o bairro à encomenda. Beber água é um grande esforço. Tenho de ter mesmo sede para me dar ao trabalho de pegar no garrafão e virá-lo para um copito. Chego aos chineses e vejo umas quantas maquinetas daquelas. Peço a mais barata, 15 dolares, o botão da água quente ou não funciona ou tem a luzinha laranja fundida, baixa para os 12 e está feito o negócio. Finalmente vou beber água por tudo e por nada. Faço o trajecto inverso até ao bairro, começa a pingar e daqui a nada vai desabar.
Liga-me o Mr. FUP a dizer que há problemas no porto e os profes têm reunião urgente, daí a 15 minutos na Sala de Profes da UNTL. Atravesso a muralha e encontro o Adido de Segurança que nos dá mais algumas luzes. Vamos ser evacuados. Houve um derrame no porto, mesmo atrás de nossa casa. Pouso a maquineta, e sigo para a Universidade, já atrasada porque acompanho a A.-malária e o Q.-irritado-dos-intestinos. Quando chegámos a reunião já acabou. Dois resumos possíveis, como sempre em Timor: ou é verdade ou é boato.
É verdade.
Um navio que transportava ácido-plutónico-empobrecido (HCl) em direcção à Austrália teve um furo, e os australianos mandaram trocar o pneu em Timor. Este ácido, que era usado na primeira guerra mundial para eliminar pessoal, tem a característica de formar nuvens tóxicas, pesadas. Saímos da UNTL, e no caminho para casa assistimos a um pôr-do-sol radioactivo cor de rosa, verde, amarelo, laranja, lá para os lados do porto. A nossa rua estava fechada e bem guardada por uns camuflados neo-zelandeses jeitosos a beber Coca Cola, com a metralhadora numa só mão e um chapéuzinho ridículo à explorador da selva. Toca a fazer a mala, porque vamos para o Hotel Vila Bemori. Graças a Deus, já estava a morrer de tédio nestes dias.
É boato.
Enquanto estou no Hotel com uma bebezinha timorense de dois meses nos braços (que chora sempre que outro pega nela) penso que se é verdade aquilo que dizem. Este país é inacreditável. Querem tirar as centenas de refugiados do jardim em frente ao Hotel Timor, e até já construíram casas para eles. Lançaram o boato do derrame, para que os habitantes do jardim se desloquem, mas eles não saem. Ficam ali expostos ao gás fictício dos pores-do-sol imaginários.
Segundo, e último, por cá está tudo óptimo.
Por agora é tudo. Beijos.