Ser “malai”: O pessoal lá do bairro e os internacionais.
Díli, 29 de Março de 2007
Vive-se um pouco o apartheid nestas bandas. A verdade é que dado as circunstâncias, que de facto existem, e a limitação de movimentos na cidade, o pessoal acaba por se juntar - lá no bairro. Não havendo grande coisa para fazer, jardins para passear (porque estão todos ocupados por acampamentos de refugiados), cinema para ver, algo que distraia, o assunto sem assunto acaba por ser o dia-a-dia de cada um. Não há pachorra. O que vale é que sempre fui um pouco autista.
O pessoal do bairro dá-se todo bem. É claro que um ou outo cromos nem se sabe como vieram cá parar. Às vezes, já tarde, juntamo-nos ali debaixo da palhota (que é um coberto de palha com chão de cimento, elevado do jardim) – agora ainda mais que compramos equipamento insecticida – e conseguem-se gerar as conversas mais aleatórias imaginárias. Tem piada quando o discurso vira um pouco ao estilo big brother. Tem piada quando estou lá fora com os vizinhos de casa Zé (57, tatoos) e Ana (50, jurista) a tomar um chazinho após jantar: como se fossem meus pais, falamos das aulas, dos alunos, das compras, da empregada, disto e daquilo. O Zé traz-me bolachas de chocolate do supermercado Leader, lá para os lados do problemático bairro de Comoro onde nunca me meti, e parece ficar feliz por ter uma “miúda” da idade dos filhos dele a quem pode dar assim uns mimos que resultam. Chama-me “coxinha” por ter andado manca nos dias das picadas, ajuda-me a resolver exercícios de lógica para a disciplina de Inteligência Artificial, porque ele é um engenheiro electrotécnico e matemático de se lhe tirar o chapéu. É ele quem lava a minha roupa, porque lhe apetece. A Ana vive angustiada com a “economia doméstica” e preocupa-se de mais com tudo. Eu digo, repito e volto a dizer: “oh ana, tasse bem, relaxe, não vale a pena stressar, está tanto calor…” e ela “pois tens razão sara, devia dar mais ouvidos a esses conselhos tão sensatos”. E ficamos um pouco por aí. Ou eu fico por aí, e ela fala e fala e fala e fala. Quem fala muito também e eu não percebo nada é o Ricardo (30’s). Não percebo porque só usa palavras difíceis de jurista e um discurso muiiiito calculado. Da Verónica (30’s) falo depois.
Entretanto aparece alguém mais da minha faixa etária e lá me desencaminha para uma saída com lanternas pela cidade com postes mas sem luz. O percorrer das ruas de Díli à noite é sempre muito cauteloso e calculado – mas só pelas notícias que vi em Portugal, e pelos conselhos que as pessoas dão. Mas é tudo tão tranquilo, acolhedor e confortável. Carros, só da UN. Montes deles. Daqueles jeeps americanos brancos e gigantes com vidros pretos e letras enormes e azuis U N.
A cidade à noite é triste e dizem que dantes não era assim. Não há taxis a partir das 19h e só circulam patrulhas da UNPOL, GNR e Grupos de Operações Especiais. Os restaurantes estão quase todos fechados, não há vida acessível a nós, malais. Só mesmo dentro do bairro e em bares de paredes pintadas ou de canas de bambu e telhados de palha na praia. Muito bonitos, mas muito vazios do que é local. Só se vê soldados e militares e polícias e dessa gente de cabelo rapado, músculos exagerados e barriga de cerveja, de todos os cantos do mundo. Cada um como seu interesse pela ilha.
O Quim ficou numa das duas casas com mais jovens. Os únicos mais velhos – Rosinha e João, tiveram de se mudar do bairro porque têm alguma ligação à política e começou o período de campanha eleitoral. A Rita embora tenha 42 anos parece muito mais jovem. É super prática e já é experiente nestas andanças, embora tenha chegado no mesmo dia que nós. O João está como eu, a aprender a ser professor. Às vezes saímos das aulas encantados, às vezes frustrados. Todos têm sempre histórias engraçadas a contar sobre a aula, ou o aluno, ou a sala. Não há nada melhor do que sair da sala com uma sensação de sintonia com o mundo e não há nada pior do que sair da aula completamente de mãos na cabeça a pensar que estes gajos não pescam nada do que eu digo. Comecei a dar a matéria de Inteligência Artificial do 3º ano, e tive de recuar até Lógica do 1º ano, e tive de recuar outra vez até ensinar português. É muito difícil incutir teoria, mas assim que eles passam para o computador transformam-se nos melhores alunos.
Se estiver a olhar para a palhota a minha casa é a mais à direita, a do Quim é à minha esquerda, entre a minha e a casa do Luis. Este rapazinho, chegou há uns dias e ainda não percebi se anda completamente jetlagado ou se é mesmo assim desnorteado. Parece que caiu de outro planeta. Para quem conhece o personagem Piroman, o Luis é a versão loira de olhos azuis. Nessa casa vive também um ser da embaixada, um senhor Salles e o prof. Pedro Sequeira, timorense que me deu boleia para a médica no outro dia e promete ser um contador de histórias.
À frente da minha casa vivem 4 meninas que já cá estavam ou tinham estado e que formam um grupo um pouco fechado. Em princípio vou com uma delas – a Luísa - a Lospalos nas férias da Páscoa a um orfanato ensinar a fazer queijo, sabão e papel reciclado. Os outros dois habitantes são o Gabriel que mal conheço e que costuma estar sempre fora e o Tozé, o tal escritor, que já conheço bem e parece ser das pessoas mais ou menos jovens mais interessadas na terra, juntamente com a Verónica.
Ao lado dessa casa e como que a fechar um quadrado, é a casa do Augusto, Maria Helena, Carlos, Duarte, Paulo e Artur. Os três primeiros apanharam malária logo na primeira semana. O Augusto (50’s) é um professor de Beja que vive para os 2 meses por ano que passa em Timor. Este ano teve de se demitir da Universidade para poder vir, e numa semana apanhou malária e uma série de infecções complicadas. Tem de voltar a Portugal no fim de semana. A Maria (50’s) também apanhou malária do mesmo mosquito que o Augusto, bem como o Carlos de Manatuto que já cá vive há uns anos e e é chamado assim por ter uma casa na cidade com o mesmo nome. O Duarte é albino, tem 60 anos, um ar muito frágil mas um discurso sabedor. O Paulo é quase coordenador de Engenharia Informática, já cá está há 3 anos e tem-me ajudado imenso. O Artur é um moço alto e espadaúde que chegou entretanto e parece saído de um filme de hollywood. Cara amiga, “not my type”.
Na próxima rodada falo da gastronomia, ok?