Thursday, March 27, 2008
Friday, June 29, 2007
Estado completo de fotografia embriagada
Tal como em todos os outros dias, o céu tinha um tom diferente ao qual me habituei.
Depois de uma visita à Drª Antónia e de uma ida ao supermercado chinês só para olhar, cheguei àquela parte da avenida esburacada onde seria normal virar à direita. A temperatura estava doce, eram 17h de uma 6ª feira preguiçosa, e dei por mim a pensar que nunca tinha virado ali à esquerda. Aliás, naquele momento não dei por mim a pensar em nada, simplesmente virei à esquerda e só quando atravessei o jardim e entrei numa dimensão que só me trazia novidade é que de facto pensei “eu não conheço nada para este lado”. Este pensamento está errado, não por ser mentira, mas, por exemplo, certamente os timorenses usariam uma forma muito mais correcta do ponto de vista gramatical, semântico e lógico de transmitir aquela ideia que contra o meu propósito e que com a minha dupla negação se anulou.
Nessa altura da minha caminhada eu já estava acompanhada. Fomos andando, primeiro junto ao porto, depois pelo passeio que acompanha o chamado mar de Banda. Do outro lado da estrada o jardim do qual os refugiados se apoderaram e no qual construíram os seus castelos, o seu império. Há uma parte do caminho onde não surpreendentemente o passeio deixa de existir dando lugar a um pedaço de terra cravado de árvores de grande porte. Numa delas estavam pendurados 2 homenzinhos que descascavam os ramos e riam não só muito como alto. Cá em baixo, os miúdos jogavam futebol com camisolas da selecção portuguesa num campo improvisado relvado imaginário. Continuamos, em silêncio.
À porta da igreja que está dentro do campo de refugiados existe uma Terra que podia ser feita de pasta de papel. Foi o cântico que nos convidou a entrar. E assim entrámos, sentámo-nos lá ao fundo e deixámo-nos estar, a ouvi-lo. “ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e / urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às / nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso” * Estava a haver um ensaio do coro que entoando aquelas palavras imperceptíveis misturadas pelo leve toque de uma guitarra conseguiu pôr os céus a chorar a paz que dentro daquele edificio existia. E assim fomos ficando, talvez duas horas. A ouvir.
Quando saí já me tinha despedido e já tinha parado a chuva. O chão era um rio, o Sol daí a nada ia-se pôr. Mergulhei os pés na poça, virei à direita, e preguiçosamente fui terminar a minha semana para outro lado.
* Herberto Hélder, Os Animais Carnívoros
Tuesday, June 5, 2007
Sair
“Sair dos dias. Não dormir. Não falar com ninguém. Ficar de fora do lá de fora. Ocupar o coração. À força. Ser como ele. É muito bom e faz muito bem. Espera-se um bocadinho e, pouco a pouco, ele começa a correr para dentro de nós, aflito por atenção. Traz as coisas que adiámos, em que não reparámos, que não tivemos tempo de cuidar. E primeiro vêm as mágoas. A felicidade que recusámos. Sem saber. Sempre sem saber. A tristeza que fugimos. Voltam.
É muito bom e faz muito bem.
Sair de nós. Cair nos outros. Não escrever. Ler. Não pensar. Lembrar. Os amigos quietos. O murmúrio do riso que riram. A família parada. O colo onde cabe a cabeça. O amor adormecido. Estas coisas acordam. E sossega saber que nós não somos nada sem eles. E mesmo com eles, quase nada. Escravos de carinhos somos nós, seguindo atrás, de braços abertos, numa fila sem fim.
É muito bom e faz muito bem.
Sair dos trabalhos, do dinheiro, das palavras que nada querem ou conseguem dizer. Fazer gazeta. Faltar. Desobedecer. É um trabalho também. Não ir. Não responder. Não entregar. É cumprir também. Desmergulhar. Desfazer. Desacontecer. São tarefas também. Ainda mas difíceis, talvez.
É muito bom e faz muito bem.
Sair da ordem. Cair na doçura do acaso. Trocar de caos. Descer. Vestir a mesma roupa. Não fazer a barba. Beber. Fumar. Sem pausa. Sem razão. Ceder. Emergir. Abandalhar. Fazer o que não se está a fazer. Esticar a corda. Não atender. Desarrumar os livros. Passear pela casa como se fosse uma cidade destruída. Estragar.
É muito bom e faz muito bem.
Sair da vontade. Cair na estupidez. Não descansar. Ver televisão numa língua que não se compreende. Forçar. Esquecer.
Fazer o que não apetece fazer. Contrariar. Confundir. Comer atum de conserva com uma colher. Pôr o despertador para tocar mal se comece a adormecer. Dizer disparates em voz alta.”Todos agora”. Virar o bico ao pego. Arrepiar. Arrepender.
É muito bom e faz muito bem.
Sair do corpo. Cair na alma. De chapão. Sem ver nada à frente. Receber os mistérios. Sem cerimónias. Sem compreender. Ser absorvido. Subjugado. E agradecer. Perder o norte, o fio, os sentidos. E gostar. Divertir. Desprender. Chafurdar na lama. Acriançar. Rir. Começar a chorar. Ser levado, enlevado, enganado, desprotegido, confuso, cruel. Desviado.
É muito bom e faz muito bem.
Sair da vida. Cair na morte. Sofrer. Iludir. Acabar. Permanecer na cama. Pensar em tudo o que se faz como se fosse a última vez. Esmorecer. Querer voltar atrás e fingir que já não se pode. Confessar. Pedir. Esvaziar. Ter pena de quem se foi e do que se fez. Rejeitar o perdão, a redenção, a última oportunidade.
É muito bom e faz muito bem.
É tão bom e faz tanto bem que, às vezes, cada vez mais, não apetece regressar. Tanto que só nos resta levantarmo-nos de onde caímos e, deixando-nos conduzir por tudo o que nos tolheu os passos desde o dia em que começámos a errar, na contramão das nossas almas, só nos resta procurar um sítio onde a nossa ida não se reconhece, não se aceita, não faz sentido, e entrar.
Entrar aqui. Daqui de onde nunca se sai. E ficar.”
Miguel Esteves Cardoso
Friday, June 1, 2007
O meu 1º carro
Wednesday, May 30, 2007
andy warhol
I broke
something
today,
and I realized
I should break
something
once a week…
to remind me how
fragile
life
is.
violentamente
eminente
inevitável
violento.
inebriante
etéreo
idílico.
o poeta diz que palavras são coisas.
há coisas pelas quais nutro
sem complemento indirecto.
Tuesday, May 29, 2007
Barreiras arquitectónicas em 3 idas ao teatro
12 de Maio - FULGOR E MORTE DE JOAQUÍN MURIETA
Espectáculo de abertura da 26ª edição do Festival Fazer a Festa, Teatro Art’Imagem
de Pablo Neruda,
“A sua cabeça cortada reclamou esta cantata e eu escrevi-a não só como uma oratória insurreccional, mas como uma certidão de nascimento.”
encenação de Roberto Merino ,
Assim também parte Murieta para a Califórnia dourada que se converte numa espécie de miragem: ´os homens sempre pensaram que o ouro lhes daria a felicidade.(Óscar Wilde)´. O poeta canta então a épica, trágica e ´longa história de um homem inflamado, história de meu compatriota, o honorável bandido Don Joaquin Murieta´ porque a vida real na Califórnia é bem diferente da sonhada. Lá longe na Grande América, Joaquin conhece melhor a injustiça e como é difícil ser estrangeiro pobre nesse país. Murieta ´galopa para vingar seu irmão que um gringo matou pela costas e levanta a mão, afastando-se violento com um cavalinho de pau nas mãos do vento´.
Referência aleatória
TeCA - Teatro Carlos Alberto
Impecável.
Se andar de cadeira de rodas fosse sempre assim, ninguém quereria cansar as belas pernas. Apesar da peça ter sido um pouco chata e da minha completa incapacidade de concentração no que se estava a passar no palco (os meus pensamentos recentemente suspensos estavam a meio mundo de distância), devo dizer que entre rampinhas, elevadores e corredores largos, quase nem me senti deficiente nesta minha primeira investida pela Invicta como semi-inválida. O único senão foi mesmo a entrada no teatro que tem um degrau descomunal. O que vale é que o meu pé coxinho me salva, e bastou um saltinho para entrar no paraíso da cadeira de rodas. Poderia ter sido absolutamente autosuficiente se tivesse mais experiência na manivela ao subir rampas. A ajuda da Anastácia e do Rodrigo que me acompanhavam foi quase só necessária pela novidade que este acessório que me acompanha (e me mobiliza) representa. Claro está que o que me impressionou ligeiramente foram os olhares de quem não espera ver uma jovem gata como eu confinada a uma cadeira de rodas.
Parabéns ao arquitecto do TeCA consciencializado para a causa do deficiente motor.
15 de Maio - CARA DE FOGO
TUP - Teatro Universitário do Porto
de Marius von Mayenburg,
“Qualquer relação amorosa entre pessoas é uma prova do quanto-se-agüenta”
encenação de Luciano Amarelo,
Cara de Fogo é uma peça de contradições de sentimentos e acções. Voltar a encontrar o momento do nascimento, reviver a sensação do momento da saída, em sofrimento, do ventre da mãe. É esta a ideia que move Kurt, um jovem adolescente, com fascínio pelo fogo, no seio de uma família presa num limbo entre de falta de comunicação e a ausência de amor. Uma relação incestuosa, entre Kurt e Olga, surge como um incêndio que os consome. Entretanto, aparece Paul, que se torna namorado de Olga e rapidamente passa a fazer parte do quotidiano da família. Num auge de insanidade e destruição, Kurt queima tudo o que provoque uma chama deslumbrante. A mesma chama interior de Kurt que só poderá ser extinta no dia em que conseguir recordar o instante violento do seu nascimento.
Referência aleatória
Museu do Carro Eléctrico
Mais ou menos.
A aventura começou com a inserção da cadeira de rodas no carro da Ana. O Miguel não trouxe o Mini Cooper, muito conscienciosamente, mas ainda assim não foi fácil encaixar a cadeira na mala do Peugeot 206. Chegados aos Museu do Carro Eléctrico, foi necessário dar um primeiro salto ao pé coxinho para passar o portão e depois o que estragou tudo foi o piso em paralelo. Os pneus pouco cheios não facilitaram o processo. Foi-nos sugerido que visitássemos o Museu enquanto esperávamos que a peça começava e para isso abriram um portão especial. Quem está debilitado não gosta de se sentir especial nos edifícios. Roda que se enfia nos carris do eléctrico, ou nos espaços entre paralelos. Que cansaço.
A peça, espectacular. A melhor que já vi em toda a minha vida, não tanto pela história, mas pelo espaço, pelo som, pelos actores, pelo ambiente que foi criado. Quem tiver oportunidade de ver, caso haja reposição no mesmo local, que não a perca.
28 de Maio - O ARRANCA CORAÇÕES
INPUT 07 1º Festival Anual de Teatro da U. Porto, Engenharte, FEUP
a partir de Boris Vian,
“Tentei contar às pessoas umas histórias que elas nunca tivessem ouvido contar. Parvoíce pura, parvoíce dupla – só gostam do que já conhecem.”
encenação de António Júlio, António A. Silva e Andreia Moisés,
Ao tomarmos cada uma das nossas palavras habituais ao pé da letra, deparamo-nos com o país monstruoso que nos cerca, o dos nossos desejos mais implacáveis, onde cada amor esconde um ódio, onde os homens sonham com navios, e as mulheres com muralhas.
Referência aleatória
Estúdio Latino, Teatro Sá da Bandeira
Experiência péssima. Terrível.
Acompanhada pela Luísa, Rui, Daniela e Filipe, entro no teatro, onde o amável pica dos bilhetes me diz “Menina, vai ter de subir isto tudo”. Do sítio onde estou só vejo um vão de escadas de digamos uns 15 degraus. Pergunto ao senhor se me pode levar ao colo. Ele responde que tem de controlar as entradas. Boa desculpa. Felizmente já posso andar de muletas. Apesar de assustadora no meu estado, a escadaria é fantástica e à filme. Com rococós dourados e tapetes vermelhos e se eu não estivesse com o gesso mas sim com um belo tacão no pé sentir-me-ia uma princesa. A clavícula partida condiciona o meu movimento de ombros que permitiria avaliar com uma olhadela lá para cima o número de degraus a partir do rés do chão. Quando chego ao primeiro patamar vejo que afinal o vão não acaba ali. Tenho mais 2 andares para trepar.
(Lembro-me de na noite do acidente estar deitada no chão da montanha com uma inclinação de 75 graus, cabeça para cima, pés para baixo, como haveria de ser, e de querer içar o meu corpo até um sítio onde me podia deitar de lado e dessa forma deixaria de sentir o pé a latejar com o sangue todo que descia até à fractura. As dores não permitiam que o meu lado esquerdo funcionasse. Usava o braço direito para agarrar as plantas e me puxar. Subia 10 centímetros, deslizava 1 metro. Deixo-me ficar.)
Deixo de ser auto-suficiente e peço ajuda. A Luísa e a Daniela, como verdadeiras cavalheiras, fazem cadeirinha e carregam-me até lá acima, à mini sala de espera do Estúdio Latino. Já passa das 21h30 mas a porta ainda não abriu. Fico ali de pé, com a perna apoiada na muleta e espero. Entro, fico logo na primeira fila para não me cansar mais.
A saída, depois da tertúlia que tomou lugar após a peça, também foi épica. Como as portas “normais” já tinham fechado (why?) tivemos de subir tantos degraus quantos a sala tinha até chegar à porta dos bastidores para depois descer esses todos mais o número de outros (dos primeiros), embora desta vez sem a pompa e circunstância dos rococós de veludo vermelho. Cimento para aliviar a potencial queda. Lá saímos pelos fundos.
Não fosse a peça ter sido fantástica, a experiência teria sido verdadeiramente terrível porque me senti verdadeiramente debilitada. Parabéns Ana e Miguel, parabéns ao grupo.
Wednesday, May 23, 2007
Epifania
Olho para o telemóvel dela e vejo que está a usar o modo reunião. Na televisão o Porto é campeão porque ganha a uma equipa qualquer. Ela fala sobre tudo e mais alguma coisa, sobretudo sobre trivialidades que há bem pouco tempo estavam bem longe de mim. Os rostos à minha volta parecem-me todos familiares, cúmplices e vazios. Imagino o telemóvel a tocar aos berros. Tão alto que dói.
Volto agora, e fico sempre, num quarto diferente, que também tem uma janela e uma vista não para a palhota mas para o prédio gigante da Bolsa de Valores do Porto. Arrasto-me ora ao pé coxinho ora de muleta ou muletas até à varanda, onde deixo o Sol aquecer um pouco as cicatrizes na minha cara. Lembro-me do telemóvel em modo reunião. Não poderia tocar aos berros. O modo reunião é baixinho. Ai eu estava tão longe de reuniões. Sinto-me tão afundada nesta melancolia do ter voltado sem querer. Ainda me parece que isto é tudo um sonho longo, fruto da profilaxia da malária.
Surreal.
Brutal.
Violento.
E é por isto que deixei de escrever. Não me sinto bem em partilhar a minha infelicidade por estar de volta. Até a doçura de Timor foi amenizada, com esta saída brusca. As recordações estão presas num momento em que a terra aluiu, num espaço de cinco centímetros onde a roda não devia ter passado. No momento e a partir desse momento.
Uma sucessão de desgraças.
O acidente.
A espera.
O hospital.
O diagnóstico.
Os diagnósticos.
A evacuação.
A médica do seguro.
O novo diagnóstico.
A operação.
O tempo de recuperação.
O não voltar a Timor. A curto prazo pelo menos. O não ter objectivos definidos. Só me apetece lamentar. “Os céus choram a existência (…)” disto tudo.
Enquanto isso, os céus estrelados e guiados pelo cruzeiro do Sul celebram a existência do respirar a fundo e começar a sonhar no Timor profundo.
Tuesday, May 22, 2007
onde o sol se põe e nasce
Como o nevoeiro para o Dom Sebastião, lá para os lados dos Mouros, ficará o pôr do Sol em mim, na terra do Sol nascente.
Uma sucessão de desgraças que só me apetece lamentar, e que ilustro com a praia da Areia Branca agora bem longe de mim e que não voltei a ver desde que saí, para ir passar o fim de semana fora, ao monte Ramelau.
Friday, May 11, 2007
3 ideias a não esquecer
Porto, 11 de Maio de 2007
Efeitos de jetlag, insónias terríveis.
Acordo às 4 da manhã a pensar na temperatura que estará à porta da casa 2, no bairro. Que estarão eles a fazer…
Decido reler o meu caderno dos 16 anos religiosamente caligrafado, uma relíquia do trabalho manual, e encontro as seguintes 3 ideias que nunca esqueci e que quero partilhar:
1º
“A fila é circular e só acaba quando o primeiro chegar. O fim vem logo antes do começo e um relógio do avesso dá o sentido natural: dessa vida tu só leva a vida que tu leva.”
2º
“E se tudo fosse doce, não existiria sal.
Para achar alguma coisa, alguém a teve de perder.
(o nada é uma das coisas mais difíceis de entender)
É inverno no inferno.
E nevam brasas.”
3º
“O zero saiu da tabuada
O ó saiu do alfabeto
Começaram a brincar
Dentro de um caderno aberto
O zero entrou no alfabeto
O ó entrou na tabuada
Até hoje
Ninguém deu por nada”












